quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Psicopatia: mitos e verdades

O PSICOPATA NUMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

A psicopatia tem sido encaixada, ao longo do tempo, numa infinidade de nomenclaturas, mas a grande verdade é que, apesar das várias mudanças ocorridas na definição do termo, pouca coisa nas conceituações atuais é realmente nova quanto à descrição do indivíduo psicopata. Mesmo as definições mais recentes como transtorno de conduta, transtorno de personalidade anti-social, sociopatia etc. apenas atualizam o nome, não o fato em si, o fenômeno. As palavras utilizadas para se designar o indivíduo psicopata sofreram alterações no decorrer dos anos, como resultado das próprias mudanças sócio-culturais, que culminaram gradativamente numa forma mais polida, mais técnica e menos associada ao senso-comum, de referir-se à Psicopatia. Inicialmente, por volta de 1800, eram empregados os termos insanidade moral, loucura moral, demência moral, estados de degeneração etc. Hoje, o fato de nos referirmos ao psicopata como alguém portador de um transtorno anti-social, não modifica em nada suas características, as quais permaneceram as mesmas desde sempre, ainda que possamos considerar a nossa sociedade atual uma grande “fazedora” de psicopatas (PIROLI, 1997; SHINE, 2001).

A descrição do psicopata, em termos do seu comportamento e outros elementos observáveis, é igual tanto para a psiquiatria quanto para a psicanálise. A diferença fundamental reside no fato de que, enquanto as concepções clássicas (ou psiquiátricas) permanecem atreladas ao observável e não discriminam o aspecto individual daquele que é universal / genérico, a psicanálise propõe-se justamente a devassar o indivíduo psicopata, suas motivações internas, sua vida psíquica. Dessa maneira, como afirma Piroli (1997, p. 118):

O embasamento que as concepções psicanalíticas nos oferece (sic) não modifica em absoluto a descrição clássica do comportamento de um psicopata, porém permite a discriminação do comportamento específico desses indivíduos. É com o “porquê” do comportamento que temos essa discriminação.

As principais características do psicopata na concepção psicanalítica variam segundo diferentes autores, sendo possível, no entanto, como propõem Piroli (1997), resumi-las todas de acordo com certas colocações gerais:

- o psicopata é um perverso e a psicopatia se insere, portanto, na categoria das perversões;
- seu comportamento desregrado e seu desrespeito às normas derivam de uma transgressão à lei do pai (estabelecida pelo complexo de Édipo);
- o psicopata é portador de um ego clivado, sendo que uma parte dele mantém contato com o mundo externo, dando a aparência de normalidade e através da qual ele se mostra muito sedutor e agradável, porém, de outro lado, seu ego está também muito ocupado com ataques e defesas fantasiosas, o que o faz sempre desconfiado e perseguido, não conseguindo manter seus relacionamentos de forma duradoura e evitando ocasiões públicas, por não conseguir lidar com muitas pessoas ao mesmo tempo;
- sua capacidade em utilizar os outros e seu parasitismo advém do fato de que as pessoas são consideradas por ele como um prolongamento de si mesmo, servindo para realizar seus desejos. Em contrapartida, é negado todo e qualquer valor aos outros;
- ele é agressivo, brutal, criminoso por estar, a todo o momento, ocupado com suas fantasias onipotentes de ataque e defesa;
- sua incapacidade em experimentar culpa, do ponto de vista consciente, provém de um superego extremamente arcaico e impiedoso. Mas inconscientemente, a culpa do psicopata é imensa e ele a projeta nos outros, culpando-os por suas próprias ações;
- o psicopata não sente amor, havendo um predomínio de sentimentos hostis, resultante de um fracasso em suas primeiras relações objetais e na função de reparação;
- não aprende com a experiência, pois não há “tempo” para buscar o mundo externo, de tão imerso que o psicopata se encontra em suas fantasias onipotentes de ataque e defesa persecutórias;
- ele atua ao invés de simbolizar, pois não é capaz de diferenciar o símbolo do objeto (ele está preso na equação simbólica) caracterizando assim um pensamento deficitário.

OS PAIS DO PSICOPATA

Os pais de um psicopata são, em geral, pessoas incapazes de elaborar perdas e tendem, normalmente, a estabelecer entre si e com outras pessoas, um vínculo mal integrado dentro de uma relação sufocante e simbiótica. Por não conseguirem elaborar o luto, característico das situações de perda, tornam-se incapazes, consequentemente, de auxiliar o bebê a elaborar seus primeiros lutos. Os pais do psicopata relacionam-se com ele de forma excessivamente ambivalente, ora considerando-o um prolongamento de si e tratando-o com mimo e conivência exagerados, ora tratando-o de maneira fria e distante. Quase sempre, o psicopata é o tipo de bebê que não foi realmente desejado, principalmente por ter sido uma possível ameaça à estabilidade da relação dual marido-esposa (PIROLI, 1997).

As trocas afetivas entre o casal e entre estes e o bebê são minguadas, supervalorizando-se tudo o que é superficial e externo, como bens materiais. Estes aspectos são aos poucos internalizados como valores pela criança. Os pais do psicopata tendem também a refletir muito da nossa sociedade atual, que vive hoje uma crise intensa e perturbadora no campo familiar, e uma ênfase cada vez maior no ter ao invés do ser. Desse modo, o psicopata cresce, não raro, dentro de relações familiares permeadas pela hostilidade, ciúme, promiscuidade, irresponsabilidade, relacionamentos extraconjugais e onde o casal se comporta como pessoas solteiras, cada qual preocupado com seus próprios interesses. Nessa situação toda, o filho assume o papel doloroso de servir como palco e receptáculo das identificações projetivas dos pais (SHINE, 2001).

A mãe do psicopata assume, geralmente, características quase autísticas (isto é, auto-centradas, egocêntricas), estabelecendo uma relação de dependência e simbiose com as pessoas, o marido e também com o filho. Ela exige assim o amor e a atenção que não teve do marido ou dos outros do seu próprio filho, visto como uma mera extensão sua. Ela pode até ser muito amorosa, mas esse excesso de amor, enquanto resultado do amor que ela tentara depositar em vão no marido, sufoca a criança e apresenta a ela um pai inconsistente, fraco, débil, desvalorizando-o, a partir da criação de um conluio com o filho. A mãe do psicopata incita este desde cedo à burla da lei do pai (PIROLI, 1997).

Outra característica da mãe do psicopata é sua falha na função de reverie, que consiste na capacidade de metabolizar angústias, desconfortos e outras sensações insuportáveis para este bebê, devolvendo-as suficientemente modificadas para que o bebezinho as possa suportar. A mãe do psicopata não só devolve a ele suas identificações projetivas, tal qual foram enviadas, como ainda introduz nele as suas próprias identificações. Isto gera um extremo horror na criança e uma sobrecarga no seu psiquismo. A única solução visualizada pelo mesmo é a da onisciência e onipotência, que irão caracterizá-lo dali por diante. Também advém daí a sua condição de constante ataque e defesa ao mundo externo e sua persecutoriedade. O indivíduo cria assim uma forma megalômana de funcionamento mental, onde a realidade é negada e as condições de bem e mal, certo e errado, não existem como estipuladas convencionalmente. Ao atuar, por meio do crime, ele alivia dores psíquicas insuportáveis e insustentáveis (PIROLI, 1997).

Por sua vez, o pai do psicopata é o indivíduo tipicamente autoritário e rígido, despótico e narcisista, que impõe de maneira severa sua lei, sendo assimilado pela criança como uma autoridade mágica, que embora seja sempre burlada pelo psicopata, é, de outro lado, sempre reconhecida por ele. Mas esse pai também pode ser o contrário, aquele do tipo conivente e indiferente, o pai desprezível, envolto na drogadição, no alcoolismo, num histórico de furtos ou de delírios mais graves. Em ambos os casos, é cobrada do filho uma postura sempre perfeccionista, onde o psicopata não pode errar nunca. Se ocorrerem falhas, elas serão negadas, ocultadas ou severamente castigadas. Daí a maior importância atribuída pelo psicopata à aparência e à mentira do que à verdade.

PSICOPATIA E SOCIEDADE

A questão da psicopatia passa necessariamente pela do tratamento. É possível tratar um psicopata? Ou a sociedade deve simplesmente mantê-lo aprisionado e longe de todos os outros? Independentemente das possibilidades de intervenção clínica da psicopatia, que serão também abordadas neste trabalho, o tema é de relevância por si só enquanto reflexão crítica sobre nossa sociedade. Talvez o psicopata não seja unicamente fruto da sociedade, mas esta pode ou não aprender a lidar com ele, o que envolve, inegavelmente, uma questão ética. Como diria Shine (2001, p.131): “Lidar com o psicopata é lidar com a problemática ética da conduta”.

Diante de um indivíduo tão violento ou inescrupuloso como o psicopata, um “demente moral” como o tratavam as definições clássicas, ficamos cara a cara com as nossas próprias tendências psicopáticas. Embora lutemos veementemente contra os horrores da criminalidade e da violência cometidas pelo psicopata, não podemos negar que de certa forma suscitamos isso como parte de nossa sociedade, o que se pode observar nos filmes, seriados de televisão e no interesse de muitas pessoas pelos casos de assassinos seriais. Como nos fala Jung (1946/1990, p.17):

A sensação de todo crime provoca o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, demonstrando que todo mundo, desde que não seja insensível ou apático, é excitado pelo crime. Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma em mal, na medida em que acende o mal na própria alma. O assassinato acontece, dessa forma, dentro de cada um e de todos. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção.

Assim, além da questão ética que a psicopatia nos coloca perante a clínica, está uma preocupação no sentido de que as tendências anti-sociais deixem de proliferar. Hoje tem se falado muito numa “psicopatia comunitária” ou “subcriminal”, atentando para o fato de que o psicopata nem sempre é aquele que vemos nos filmes, que comete crimes e mata inúmeras pessoas. Ele também pode ser o vizinho ou o colega de trabalho, que sorrateiramente e sem piedade, anula as chances de crescimento profissional ou o bem-estar dos que estão à sua volta. Psicopatas com habilidades de manipulação e suficientemente inteligentes podem adentrar uma empresa sem grandes esforços e passarem despercebidos enquanto tais. Na verdade, a aparência de certo grau de inteligência e o charme e sedução com que atua, pode inclusive ser determinante na aceitação do psicopata como um candidato ideal (SHINE, 2001).

Tais aspectos nos remetem, de um modo ou de outro, à nossa maneira de ser em sociedade. Não estaríamos privilegiando o externo e o superficial além da conta, e olvidando assim características mais duradouras? Se um psicopata pode adentrar livremente uma organização e angariar sucesso e reconhecimento profissional tão facilmente, à custa do sofrimento alheio, então o que esperar de nosso meio social? Isso pode ser agravado ainda se consideramos a tolerância excessiva, conivência e falta de compromisso das autoridades brasileiras no que diz respeito ao fenômeno da impunidade.

Alguns autores têm chamado a atenção para o fato de que as condições de trabalho em nosso mundo moderno parecem propiciar, de certa forma, a ascensão do psicopata. Trata-se de um meio fragmentado, individualizado e caracterizado pela competitividade extrema, onde o que mais importa é a forma como o indivíduo irá conduzir sua imagem, gerenciando-a no sentido daquilo que é esperado frente às demandas do mercado. Isso tudo desloca a energia das pessoas, que era antes dirigida à construção do caráter e de valores éticos humanistas, para uma realidade profissional que é em si mesma uma fazedora de psicopatas, visto serem essas condições as mais favoráveis para que ele exponha seu narcisismo, explore os demais e realize suas fantasias megalômanas (PIROLI, 1997; SHINE, 2001). Um exemplo claro das catástrofes geradas e do perigo que ronda a possibilidade de crescimento profissional e social de um psicopata, foi a ascensão de Hitler ao poder. Entre os políticos é possível encontrar, não raro, indivíduos claramente psicopatas (JUNG, 1946/1990).

REFERÊNCIAS

HILLMAN, J. O direito de permanecer em silêncio. Disponível em: . Acesso em 29 de set. 2007.

PIROLI, Kátia Silvana. Personalidade psicopática: um estudo sobre sua estrutura psíquica e seu funcionamento. 1997. 213 f. Dissertação (Mestre) - Curso de Psicologia Clínica, Universidade Guarulhos, Guarulhos, 1997.

JUNG, C. G. (1946). Aspectos do drama contemporâneo. São Paulo: Vozes, 1990.

SHINE, S. K. Psicopatia. Rio de Janeiro: Casa do Psicólogo, 2001.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O inconsciente na psicoterapia (Parte Dois)

Sabe-se que no trajeto da criação dos métodos propostos por Sigmund Freud, alguns conceitos e técnicas foram abandonados e outros mantidos. O modelo inicial do aparelho psíquico, sustentado nas noções de inconsciente, pré-consciente e consciente, pode ser considerado um exemplo disso. Embora a divisão dos processos psíquicos nas três categorias citadas tenha se mantido, Freud (1923/1987) ampliara sua teoria inicial, ao incluir três novas instâncias. Quando foram criadas, ele nomeou-as de: isso, eu e super-eu, mais conhecidas como o id, o ego e o superego (essa última categorização, baseada na tradução inglesa das obras de Freud, tem sido criticada em revisões recentes que tomam por base o original alemão. Iremos mantê-la, no momento, apenas por ser a mais conhecida). Sem extinguir o modelo da 1° tópica, Freud conceberá que essas instâncias se distribuem ao longo do estado inconsciente, do estado pré-consciente e do estado consciente. O estado totalmente inconsciente é representado predominantemente pelo id, e os estados de ordem consciente e pré-consciente têm como seu representante direto o ego, já que o superego seria formado por aspectos tanto inconscientes como conscientes. Contudo, nesse mesmo trabalho – o Ego e o Id (1923) – Freud chegou a especular que o ego também teria sua contraparte inconsciente.

O ego poderia ser descrito aqui como “uma organização coerente de processos mentais”, associado à consciência, responsável pelo controle da motricidade, num nível fisiológico, e pelos processos de censura sobre os conteúdos dos sonhos, pela repressão e pela resistência frente ao reprimido. Sob tais aspectos, o ego relaciona-se fundamentalmente àquilo que inicialmente restringia-se aos sistemas pré-consciente e consciente. Em verdade, Freud considerará aqui o pré-consciente como núcleo do ego. É neste momento, contudo, que as relações entre os sistemas ou estados psíquicos descritos na 1° tópica, e as instâncias da 2° se tornam mais complexas, revelando aspectos antes não considerados ou abordados sob ponto de vista diverso. No que diz respeito ao aspecto inconsciente do ego, diz Freud (1923/1987, p. 30-31):
Ora, descobrimos durante a análise que, quando apresentamos certas tarefas ao paciente, ele entra em dificuldades; as suas associações falham quando deveriam estar-se aproximando do reprimido. Dizemos-lhe então que está tomado por uma resistência, mas ele se acha totalmente inadvertido do fato e, mesmo que adivinhe, por seus sentimentos desprazerosos, que uma resistência encontra-se em ação nele, não sabe o que é ou como descrevê-la. Entretanto, visto não haver dúvida de que essa resistência emana do seu ego e a este pertence, encontramo-nos numa situação imprevista. Deparamo-nos com algo no próprio ego que é totalmente inconsciente, que se comporta exatamente como o reprimido – isto é, que produz efeitos poderosos sem ele próprio ser consciente e que exige um trabalho especial antes de poder ser tornado consciente. Do ponto de vista da prática analítica, a conseqüência desta descoberta é que iremos parar em infindáveis obscuridades e dificuldades se nos ativermos a nossas formas habituais de expressão e tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses de um conflito entre o consciente e o inconsciente. Teremos de substituir esta antítese por outra, extraída de nossa compreensão interna das condições estruturais da mente.
Assim, tais diferenciações acabaram exercendo modificações na prática terapêutica, ao ampliar a proposta inicial de tornar consciente o inconsciente, para uma perspectiva mais dinâmica, em que se trabalha a relação estabelecida entre as três instâncias. O inconsciente é assimilado quase inteiramente à noção de Id. Todas as principais características do inconsciente, detalhadas na primeira tópica, reaparecem aqui na instância do Id, termo que se refere à forma latina do pronome neutro “es”, que, em alemão, significa “isto”. Na segunda tópica, o id é visto como a parte mais antiga do aparelho psíquico, que contém tudo o que é herdado e que já se acha presente no nascimento – acima de tudo, os instintos. O Id é o responsável pelo princípio do prazer, e sua tarefa é a de tornar possível a satisfação imediata das necessidades e impulsos plenos de desejos, que são essencialmente de origem sexual. Assim, pode-se dizer que o Id envolve os conteúdos reprimidos em sua definição, mas não está limitado por estes, revelando-se uma instância bem mais abrangente (FREUD, 1940[1938]/1978).

A escolha do termo “isto” diz respeito à impessoalidade do Id. Ele é enxergado pelo ego como algo estranho, desconhecido, uma ‘coisa’ à parte. O ego, no entanto, estabelece com ele relações constantes, podendo ser visto como sua superfície: “O ego não se acha nitidamente separado do Id; sua parte inferior [pré-consciente] funde-se com ele” (FREUD, 1923/1987, p.38). Em verdade, o ego teria surgido inicialmente de uma diferenciação do Id, como resultado da influência direta do mundo externo sobre o sistema Percpeção-Consciente. O ego é, de fato, um ego corporal, que emerge quase como uma projeção psíquica da superfície do corpo, formado a partir das próprias sensações corporais. E da mesma forma que o Id procura intervir sobre o ego com o objetivo de satisfazer o princípio de prazer, o ego tenta aplicar a influência do ambiente externo e da realidade sobre o Id, no intuito de restringir sua ação, ao substituí-la pelo princípio da realidade. “Para o ego, a percepção desempenha o papel que no Id cabe ao instinto. O ego representa o que pode ser chamado de razão e senso-comum, em contraste com o Id, que contém as paixões” (FREUD, 1923/ 1987, p. 39).

A segunda tópica não se esgota, entretanto, com as diferenciações entre ego e Id. Freud (1923/1987) nos fala ainda a respeito de uma variação do ego, que constituiria a terceira instância da segunda tópica: o superego ou ideal do ego. Para compreender melhor o que seja essa instância, precisamos recorrer aos conceitos de identificação e complexo de édipo. Segundo Freud (1921/1976, p. 55) a identificação pode ser definida “como a mais remota [mais primitiva e original] expressão de um laço emocional com outra pessoa”. Nela, o indivíduo esforça-se por assumir as características do objeto que lhe serve de modelo, moldando seu próprio ego segundo o aspecto daquele a quem se dirige a identificação. Esse processo é bem diferente de uma relação objetal verdadeira, na qual o indivíduo reconhece o outro como alguém distinto em relação a si próprio, baseando seu relacionamento com ele nessa distinção. Na relação de objeto libidinal, há um interesse real pela outra pessoa, sendo a libido dirigida para o objeto de amor, e não em direção ao próprio indivíduo. Além do mais, a identificação tende a ser um processo parcial, em que apenas uma ou poucas características da outra pessoa são internalizadas pelo ego, ocasionando assim um relacionamento empobrecido, no qual esse outro jamais é considerado em sua inteireza. A identificação tende a constituir relações extremadas, em que o outro é visto, ou como inerentemente mal, ou como inerentemente bom, não se admitindo a ambivalência do objeto de amor.


Todavia, a identificação – enquanto antecessora da relação objetal – prepara o caminho para um laço emocional efetivo. A qualidade comum a duas pessoas, elemento que as une na identificação, pode tornar-se assim o sucedâneo para uma relação de amor efetiva. É nesse ponto que chegamos à questão do complexo de édipo, e de como tal complexo terá conseqüências significativas na formação do superego. O complexo de édipo está ligado à maneira como a Psicanálise entende a sexualidade infantil e a sexualidade como um todo, o que abordaremos melhor no tópico sobre o desenvolvimento psicossexual. Por ora, basta entendermos, de acordo com Freud (1905/1996) e (1923/1987) que:

- A criança estabelece inicialmente com sua mãe uma relação de dependência física e emocional, em que necessita desta última para sua gratificação e conforto. No caso do menino, a relação que este possui com seu pai, nesse primeiro momento, é de identificação;

- Por volta dos três a cinco anos de idade, o interesse sexual que o menino possui pela mãe intensifica-se, tornando a relação inicial de identificação com o pai uma relação de hostilidade e ciúme, em que se compete pelo amor da mãe. O pai é agora um obstáculo a ser enfrentado. O conflito decorre da ambivalência dessa relação, já que apesar de haver se identificado até então com seu pai, o menino reconhece agora nele um impedimento à realização de seus desejos;

- A dissolução do complexo de édipo é alcançada quando o menino consegue finalmente dirigir seu interesse sexual e afetivo a outros objetos que não sua própria mãe, e incorpora em sua conduta, aspectos masculinos provenientes da identificação com seu pai. Freud denomina tal reconhecimento de complexo de castração, em que a criança percebe que não poderá realizar seus desejos da maneira como esperava, diminuindo com isso sua onipotência e seu narcisismo. No caso da menina, dá-se o inverso, sendo que a relação hostil perante a mãe e o amor direcionado ao pai são substituídos pela identificação com a mãe e sua feminilidade, e com a possibilidade de se amar outras pessoas do sexo oposto que não o próprio pai.

- É justamente aqui que se inicia a formação do superego. Com o declínio do complexo de édipo, ocorre uma interiorização da imagem idealizada dos pais. Ao imitar o pai, o menino introjeta aos poucos a imagem dele em seu ego, procedimento esse que acarreta a diferenciação permanente de uma parte do ego infantil, a qual irá representar, a partir desse momento, o ideal do ego ou superego.

- Num segundo instante, a imagem idealizada dos pais transforma-se em imagem ideal de si mesmo, base de todo ideal humano. Por sua vez, a função paterna transmuta-se, no interior do ego, em uma instância voltada a exercer as mesmas atividades de punição, repreensão e consciência moral desempenhadas inicialmente pelos pais da criança. O superego pode ser definido assim, como o conjunto de valores morais e sociais internalizados pela criança a partir da relação idealizada com seus pais. A esse respeito, Freud (1923/1987, p. 47) elucida que:
O superego retém o caráter do pai, enquanto que quanto mais poderoso o complexo de édipo e mais rapidamente sucumbir à repressão (sob a influência da autoridade do ensino religioso, da educação escolar e da leitura), mais severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência (conscience) ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa [...] que se manifesta sob a forma de um imperativo categórico.
Nesse sentido, o conceito de superego revela-se bem mais abrangente que o de censura pré-consciente, abarcando toda a questão da moralidade e da lei internalizadas pelo indivíduo. Na verdade, Freud negará a idéia de que os valores morais do ser humano tenham um significado supra-pessoal ou transcendente. A lei internalizada pelo indivíduo seria apenas um reflexo da lei posta em ação primeiramente pelo pai, e num segundo momento, por outras autoridades que se apresentariam ao longo de nossa história de vida.

À medida que uma criança cresce, o papel do pai é exercido pelos professores e outras pessoas colocadas em posição de autoridade; suas injunções e proibições permanecem poderosas no ideal do ego, e continuam, sob a forma de consciência (conscience), a exercer a censura moral. A tensão entre as exigências da consciência e os desempenhos concretos do ego é experimentada como sentimento de culpa. Os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal de ego (FREUD, 1923/1987, p. 49).

A questão concernente ao aspecto inconsciente do superego demandaria aqui uma ampla discussão que simplesmente não poderíamos abarcar nos limites deste trabalho. Em sua obra Totem e Tabu, Freud (1913/1996) oferece uma descrição mais completa, em que sugere que a religião, a moralidade e o senso social, foram adquiridos filogeneticamente a partir do complexo paterno vivenciado em meio à horda primitiva, o qual é reproduzido em cada indivíduo como parte inconsciente de sua constituição super-egóica.

O mediador entre os impulsos e desejos do id e as cobranças do superego é o ego, que adentra o conflito entre as duas instâncias para controlar os impulsos advindos do id e para prestar contas ao superego quanto aos desejos e impulsos que ultrapassaram as barreiras entre o consciente e o inconsciente, sendo que este último exige sempre do ego medidas de controle, no caso, controle dos impulsos em favor dos valores morais idealizados. O superego apresenta-se como agência crítica que assume para si a lei e a censura, sendo a instância que determina ao indivíduo, não só o que ele pode ou não fazer e ser, mas também o que ele não pode ser ou fazer. Por conta isso, ele é também configurado como o princípio da moralidade – em contraste com o princípio do prazer, que caracterizaria o Id, e com o princípio da realidade, expressão do ego. O superego está destinado a levar o ego a reprimir os impulsos do id e fazer com que a frustração esteja presente na vida psíquica (REIS, 1984).

Ressaltando a importância do ego, chega-se às modificações terapêuticas instauradas pela segunda tópica. Caso a tarefa de conciliação do ego se torne muito rígida, havendo censura e repressão demasiada dos desejos do id, ou ao contrário, a dificuldade em aceitar a liberação condicionada de desejos instintivos, de forma a restabelecer a economia psíquica, atinge-se com isso um estado de ansiedade e tensão psíquicas. Além dessas duas instâncias, o ego também deve lidar com a realidade externa e as demandas do meio social. Logo, o ego é de um lado estimulado e de outro espremido, permanecendo em uma situação angustiante, geradora de neuroses. Uma pessoa cujo ego é bem estruturado consegue suportar melhor as frustrações da vida, seja quanto à impossibilidade de realizar muitos de seus desejos ou quanto à impossibilidade de ser, a todo o momento, a pessoa virtuosa e perfeita que gostaria. A análise, portanto, já não tem mais como objetivo exclusivo tornar consciente o inconsciente, mas sim fortalecer o ego. Como dirá Anna Freud (1983, p. 4):
Desde o começo, a análise, como método terapêutico, preocupou-se com o ego e suas aberrações: a investigação do id e de seus processos de funcionamento sempre foi um meio apenas, para se alcançar um fim. E o fim era invariavelmente o mesmo: a correção dessas anormalidades e a recuperação do ego em sua integridade.
Contudo, o ego não é a função mais importante do psiquismo e nem sempre tem o controle das outras instâncias; o ego é a representação de uma pequena parte da vida psíquica. A vida consciente normal é aquela na qual o ego resiste tanto às demandas do id, quanto às exigências do superego, proporcionando certa homeostase à economia psíquica, lembrando que quando este processo se depara com a fragilidade egóica, são instaladas na vida psíquica do indivíduo as neuroses. Apesar de todo este desempenho que as instâncias psíquicas apresentam, nem sempre há a possibilidade do inconsciente se manifestar por meio do consciente; daí que, nos sonhos, o inconsciente busca um caminho alternativo que se pronuncia por intermédio das imagens, substituindo os conteúdos barrados pela consciência. O inconsciente transmite sua mensagem tomando como veículo o imaginário psíquico, e aproveita para emitir seus sinais driblando e maquiando os resultados que aparecem, muitas vezes em forma de sonhos, lapsos, atos falhos, sintomas e desejos substitutos aos objetos reais. É assim que a comunicação é representada pelo inconsciente. Nesse sentido, Freud (1923/1987) amplia a definição inicial de inconsciente ao estipular certa distinção entre o que seria o inconsciente em seu aspecto dinâmico, e o inconsciente em seu aspecto descritivo. O fator dinâmico envolveria o conjunto das manifestações inconscientes perceptíveis pela consciência – em outras palavras, os fenômenos inconscientes – enquanto o aspecto descritivo designa o inconsciente apenas como instância psíquica, ‘local’ em que residem os conteúdos reprimidos e os representantes instintuais, tal qual na primeira tópica.

Para lidar com os impulsos provenientes do Id, o ego se utiliza de diferentes mecanismos defensivos. Dentre tais mecanismos, o mais saudável pode ser considerado o recurso da sublimação, como forma de se aproveitar da energia emanada do inconsciente, para gerar atividades socialmente aceitas. É como se na sublimação, a libido sofresse um deslocamento cuja finalidade não implica a satisfação sexual em si mesma, mas um reaproveitamento produtivo da energia originalmente advinda das funções somáticas. A sublimação permite ao sujeito viver integrado à vida cultural e social, porque permite a substituição do desejo inconsciente que não pode ser satisfeito naquele momento por objetos compatíveis a esse desejo, e assim, de forma indireta é possível realizá-lo, trazendo a satisfação necessária ao indivíduo sem que o mesmo precise sentir angústia ou frustração pela não satisfação da libido (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001).
Fonte: FERNANDES, Maria de Fátima.
O inconsciente na filosofia: uma revisão do conceito de nãoconsciente
na obra de Arthur Schopenhauer e suas relações com o
inconsciente freudiano. Maria de Fátima Fernandes. Guarulhos, 2008.
85 f. 31 cm.

O inconsciente na psicoterapia (Parte Um)

O uso da psicoterapia como forma de tratamento das neuroses, seguiu um desenvolvimento marcado por diversas mudanças significativas e específicas, no qual o conceito de inconsciente desempenhou um importante papel, ao direcionar o processo de análise para dimensões mais profundas da psique e ao sugerir que as causas dos sintomas apresentados pelos pacientes iam muito além do que uma visão superficial, no nível da consciência, podia revelar. Ao versar sobre a evolução da psicoterapia e sobre o valor da noção de inconsciente no tratamento das perturbações neuróticas, Jung (1946/1985, p. 19) dividiu esse desenvolvimento em mais ou menos três estágios principais: a sugestão, o método catártico e, finalmente, o método psicanalítico. Inicialmente, a idéia era reprimir os sintomas, a partir de uma postura firme e decidida do terapeuta quanto à irracionalidade e absurdo contidos em tais manifestações sintomáticas. Essa forma incipiente e até mesmo ingênua de tratamento baseava-se quase exclusivamente na sugestão:
Olhando mais de perto, o que naquele tempo se entendia por psicoterapia, era uma espécie de conselho enérgico ou benevolente paternal [...] forma de convencer o doente de que o sintoma “era apenas psíquico” e, portanto, não passava de imaginação doentia.
Posteriormente, na obra Estudos sobre a Histeria, Freud e Breuer (1893) reconheceram a importância de se adentrar nas origens dos sintomas, vendo-os não mais como mero resultado da imaginação neurótica, mas como a expressão de traumas psicológicos não acessíveis à consciência. Essa concepção faria emergir o chamado método catártico, enquanto alternativa à sugestão como procedimento terapêutico. Desta vez, o que se buscava era trazer à tona os incidentes traumáticos, visando à ab-reação das emoções causadoras da sintomatologia neurótica (FREUD, 1914/1996; LAPLANCHE; PONTALIS, 2001).

Todavia, a partir de A Interpretação dos Sonhos, Freud (1900) não tardou muito em perceber algo mais nos traumas de seus pacientes, tendo verificado que o simples processo de ab-reação não serviria, por si só, como forma de eliminar a neurose. Foi a partir desse reconhecimento que ele aprofundara o estudo do inconsciente, formulando sua teoria psicanalítica. Freud passaria a se utilizar da associação livre e do método interpretativo, recorrendo aos sonhos e fantasias dos pacientes como material de análise. Suas idéias controversas e um tanto revolucionárias para a época, geraram as mais diversas reações por parte do público e de seus seguidores, propiciando o surgimento de várias teorias dissidentes (GARCIA-ROZA, 1984; LAPLANCHE; PONTALIS 2001; WOLLHEIN, 1971).

O abandono do método hipnótico por parte de Freud, ainda hoje criticado por muitos, foi o que abriu, no entanto, toda uma série de possibilidades não imaginadas antes, tendo como ponto de partida dois conceitos basilares: o de repressão – ou defesa, na qual o paciente se recusa a entrar em contato com os conteúdos inconscientes, barrando sua entrada na consciência e movendo-os de volta para o inconsciente – e o de transferência, em que se observa a interferência de conteúdos inconscientes na relação entre o paciente e o analista. Segundo Freud (1914/1996, p. 26):
A teoria da repressão é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise. É a parte mais essencial dela e todavia nada mais é senão a formulação teórica de um fenômeno que pode ser observado quantas vezes se desejar se se empreende a análise de um neurótico sem recorrer a hipnose. Em tais casos encontra-se uma resistência que se opõe ao trabalho da análise e, a fim de frustrá-lo, alega falha de memória. O uso da hipnose ocultava essa resistência; por conseguinte, a história da psicanálise propriamente dita só começa com a nova técnica que dispensa a hipnose. [...] Assim talvez se possa dizer que a teoria da psicanálise é uma tentativa de explicar dois fatos surpreendentes e inesperados que se observam sempre que se tenta remontar os sintomas de um neurótico a suas fontes no passado: a transferência e a resistência.
Consequentemente, ao remontar as origens dos sintomas da neurose, Freud chegaria aos problemas da alma infantil até atingir a questão da sexualidade, elementos esses que irão compor o colorido da teoria psicanalítica sobre o inconsciente, mesmo no final da obra de Freud, quando os conceitos de pulsão de vida e de morte são incorporados no quadro geral.

A 1º TÓPICA FREUDIANA

O conceito de inconsciente na Psicanálise não representa uma idéia isolada. Ele integra uma concepção mais ampla a respeito da estrutura e desenvolvimento da personalidade. Por sua vez, o conceito psicanalítico de personalidade atravessara três grandes momentos ao longo da obra de Freud: 1) o da personalidade como estrutura resultante de processos exclusivamente fisiológicos / neurológicos; 2) o da personalidade vista como aparelho psíquico – também chamada de 1° tópica freudiana – e 3) o da personalidade como uma estrutura dinâmica que engloba os elementos da 1° tópica, adicionando-lhes as instâncias do Id, Ego e Superego – modelo este denominado de 2° tópica (REIS, 1984).

Ao escrever a obra Projeto para uma Psicologia Científica, Freud (1950[1895]/1996) pretendia, inicialmente, reduzir as explicações acerca do funcionamento mental aos processos e modificações fisiológicas, fisicamente mensuráveis. Seu intuito era o de fazer a Psicologia entrar para o rol das ciências naturais. Contudo, essa proposta inicial acabou por ver-se frustrada diante das informações mais ricas e abrangentes que a análise da vida psíquica originara por si só. Com a Interpretação dos sonhos, Freud (1900/1996) reconstrói inteiramente sua Psicologia neurológica, propondo em seu lugar uma descrição metafórica da mente como uma espécie de aparelho o qual seguiria determinadas leis hipotéticas. É este segundo modelo, o da 1° tópica, que analisaremos num primeiro momento.

A conceituação da personalidade e suas funções como um aparelho psíquico foi designada por Freud pelo nome de Metapsicologia. A análise metapsicológica envolveria três diferentes âmbitos:
a) Dinâmico = ligado às relações de causa e efeito entre os processos ou atos psíquicos ou, em outras palavras, o conjunto das leis que regem as relações entre os diferentes conteúdos psíquicos;
b) Topográfico = ou a idéia de que tais processos ocupariam uma espécie de lugar ou região hipotética na estrutura total da mente, sendo esta caracterizada por sistemas de funcionamento específico;
c) Econômico = relacionado ao valor funcional dos atos ou processos psíquicos, concepção esta associada a uma compreensão energética do psiquismo, ou a variados graus de intensidade dos atos psíquicos. É aqui que o conceito de libido – ou energia psíquica e sexual – desempenhará papel fundamental (FREUD, 1915/1996b).
Esmiuçando melhor a dimensão topográfica da 1° tópica freudiana, faz-se necessário compreender que, nesse modelo, as idéias de Freud já não têm relação com a explicação fisiológica da teoria inicial; os lugares ou regiões a que se refere o autor possuiriam aqui um caráter bem mais abrangente. Segundo Freud (1915/1996b, p. 179): “Nossa topografia psíquica, no momento, nada tem que ver com a anatomia; refere-se não a localidades anatômicas, mas a regiões do mecanismo mental, onde quer que estejam situadas no corpo.”

Nesse sentido, os processos mentais foram divididos em três sistemas básicos: o inconsciente (Ics), o consciente (Cs) e o pré-consciente (Pcs). O sistema consciente – também chamado de Percepção-Consciente (Pcpt-Cs) – refere-se ao conjunto de relações mentais estabelecidas com o meio externo, visando à adaptação e relacionamento com o mundo, instância essa receptora tanto das estimulações ambientais como das estimulações internas. O pré-consciente – enquanto uma instância crítica que submete os conteúdos inconscientes a uma prévia reflexão ou censura – impediria a irrupção de conteúdos indesejáveis ou incompatíveis com o caráter consciente, servindo como um mecanismo de proteção aos valores do indivíduo. Ao ato de barrar ou impedir a emergência de conteúdos inconscientes, devolvendo-os, por assim dizer, ao inconsciente, Freud (1915/1996b) dera o nome de repressão.

O pré-consciente envolveria ainda todos aqueles conteúdos que possuem algum potencial para tornarem-se conscientes, mas que ainda se encontram no limiar entre o sistema inconsciente e consciente. A censura – isto é, o teste mental por meio do qual um ato psíquco ou representação proveniente do inconsciente é reprimida, retornando ao sistema de origem – exerceria sua função exatamente no ponto de transição do inconsciente para o consciente, ou seja, no sistema pré-consciente.

No modelo freudiano da psique, o inconsciente desempenha função primordial, visto que os seus conteúdos determinam, em grande parte, a extensão do funcionamento cabível às outras instâncias. Para Freud (1915/1996b) o inconsciente não serve apenas de depósito aos conteúdos previamente rejeitados, pois não se constitui exclusivamente pelo reprimido. Trata-se de uma instância complexa e, em muitos aspectos, desconhecida, a qual revelaria a origem de muitos de nossos comportamentos individuais sem justificação aparente. Para o autor, o conceito de inconsciente seria uma suposição legítima e necessária, decorrente da observação dos próprios fenômenos compilados ao longo da história da psicanálise – hipnose, transferência, etc.

Um dos grandes desafios a serem enfrentados logo de início, foi o fato de que o inconsciente não pode ser conhecido diretamente, já que não se refere a um dado inequívoco e evidente da experiência mental dos indivíduos. O inconsciente só é apreendido mediante suas manifestações indiretas no sistema consciente, por meio de lapsos, atos falhos, sintomas, fantasias, sonhos, etc. Tais manifestações adviriam do bloqueio pré-consciente de excitações internas que funcionam como representantes psíquicos dos impulsos – ou instintos. Freud (1915/1996a) define o instinto como um estímulo mental interno, uma disposição hereditária que exerce força constante sobre o sistema consciente, em busca da satisfação de determinadas finalidades – fome, por exemplo.

O instinto tem como origem a energia somática, advinda da região do corpo onde nasce a excitação. Desse modo, há uma infinidade de instintos todos eles proporcionais a reações físicas específicas – sexualidade, agressividade, alimentação, etc. Pode-se dizer que a dinâmica instintual é basicamente a do prazer-desprazer: diminuição de sentimentos desagradáveis originados pela estimulação interna, com a conseqüente emergência de sentimentos agradáveis decorrentes da diminuição dessa excitação. Tal concepção foi mais tarde retomada e ampliada em sua obra Além do Princípio do Prazer, com a incorporação dos conceitos de pulsão de vida e de morte (FREUD, 1920/1916).

Nesse primeiro momento de sua teoria, Freud (1915/1996a) dividirá os instintos em duas grandes classes: os instintos do ego – ou autopreservativos – e os sexuais, ambos de igual importância na vida psíquica. As exigências do meio social tendem a limitar o campo de ação disponível para esses instintos, e a repressão dos mesmos constitui uma tarefa cultural árdua, que nem sempre incorre em sucesso. A neurose seria, em outros termos, uma tentativa mal sucedida de se obter a reconciliação entre exigências tão díspares. Nesta primeira fase, pode-se resumir todo o esforço terapêutico da psicanálise em tornar consciente o inconsciente, não só no que tange às idéias reprimidas, mas aos afetos que lhe são associados (REIS, 1984). O inconsciente não guardaria os instintos humanos em sua forma original, mas representações desses instintos – as chamadas pulsões – as quais, na maior parte das vezes, não coadunam com as exigências da civilização e por isso são recalcadas.

Para Freud (1915/1996b, p. 182), os instintos seriam dessa maneira, os únicos elementos da psique a não comportarem a antítese consciente-inconsciente:
Um instinto nunca pode tornar-se objeto da consciência – só a idéia que o representa pode. Além disso, mesmo no inconsciente, um instinto não pode ser representado de outra forma a não ser por uma idéia. Se o instinto não se prendeu a uma idéia ou não se manifestou como um estado afetivo, nada poderemos conhecer sobre ele. Não obstante, quando falamos de um impulso instintual inconsciente ou de um impulso instintual reprimido, a imprecisão da fraseologia é inofensiva. Podemos apenas referir-nos a um impulso instintual cuja representação ideacional é inconsciente, pois nada mais entra em consideração.
Embora não seja possível acessar diretamente os conteúdos inconscientes, pode-se compreender muito a respeito dos mesmos por intermédio de suas manifestações indiretas. Com isso, Freud (1915/1996b) chega à conclusão de que o inconsciente é um território ativo, o qual possui leis e princípios que lhe são próprios e que diferem bastante dos padrões que norteiam o sistema pré-consciente. Pode-se abordá-lo a partir de dois aspectos principais:

a) Seus conteúdos, os quais incluem:
- registros mnêmicos ou idéias, para as quais não é direcionado nenhum investimento energético consciente, podendo ser descritas como originárias de impulsos carregados de desejo, cuja satisfação livre e direta é recusada pelo sistema pré-consciente;
- as chamadas protofantasias, ou formações herdadas resultantes da precipitação psíquica, no inconsciente, de eventos e experiências cuja ocorrência remonta aos primórdios da humanidade. Tais vestígios arcaicos de fantasia seriam passados de geração em geração, constituindo uma herança universal. Reis (1984) chama a atenção para a enorme semelhança entre o conceito de protofantasia de Freud e os arquétipos junguianos, lembrando-se, todavia, que Freud não viria a desenvolver e expandir esse conceito do mesmo modo que Jung;
b) Seu funcionamento peculiar. O sistema inconsciente nos propõe uma séria revisão daqueles conceitos que dirigem as atividades conscientes e, de certo modo, revelam-nos uma concepção evolutiva da mente e da personalidade. Os sistemas pré-consciente e consciente seriam o resultado de desenvolvimentos posteriores da psique, enquanto o inconsciente estaria mais próximo de nossa natureza básica. Assim, aquilo que consideramos essencial à nossa relação com o mundo e mesmo com alguns dos processos internos, não se aplica ao inconsciente. Podemos resumir tais divergências como se segue:

- No inconsciente não há contradição = os representantes instintuais que constituem o núcleo do inconsciente, existem lado a lado sem influenciarem-se mutuamente. Nenhum impulso cancela ou reduz o outro, mesmo quando suas finalidades são incompatíveis, pois há uma tendência para sua unificação numa finalidade intermediária.

- No inconsciente não há dúvida nem negação = os representantes instintuais buscam unicamente a sua própria realização, condição essa jamais questionada em si mesma. Como veremos adiante, o inconsciente é regido pelo Princípio do Prazer, para o qual não há limites estabelecidos a priori, a não ser o próprio desejo de vivenciar afetos prazerosos. A negação, segundo Freud (1915/1996, p. 191) “é um substituto, em grau mais elevado, da repressão” e, portanto, não existe no inconsciente como condição pré-estabelecida, sendo, na verdade, muito mais uma imposição da consciência.

- O inconsciente é regido pelo processo psíquico primário = a forma como a energia psíquica flui ao longo do sistema inconsciente é livre, e as trocas energéticas bastante maleáveis, pois não há impedimentos, distinções, classificações, lógica, etc. que se apliquem a esses processos. A fantasia é uma característica primordial do inconsciente. Antes de se desenvolver o pensamento e as representações verbais propriamente ditas, a fantasia é quem ocupa lugar de destaque na vida mental. Na fantasia, qualquer tipo de relação mental é imaginável, daí o fato de ser admitida como processo primário, isto é, como função mais básica ou mais primitiva, característica dos sonhos, das psicoses e dos estágios iniciais e rudimentares da vida mental.

- O inconsciente é atemporal = os conteúdos inconscientes são praticamente “eternos”, visto não possuírem absolutamente qualquer referência ao tempo. Não são ordenados temporalmente e não se alteram com o passar do tempo. Um registro inconsciente de algo reprimido há muitos anos pode emergir novamente, tempos depois, de maneira bastante vívida.

- O inconsciente ignora a existência da realidade = os conteúdos inconscientes têm por finalidade apenas sua satisfação e a conseqüente obtenção de prazer. Não há qualquer representação do real no inconsciente, mas tão somente um universo fantasioso oriundo dos desejos instintuais. O Princípio da Realidade, inerente ao funcionamento pré-consciente e consciente, não anula a busca por prazer, mas condiciona esta última a normas e valores sociais. Já não se trata de abandonar definitivamente o prazer, mas em se propiciar recursos para que o prazer seja alcançado de modo socialmente aceitável, normatizado.
Quadro 1. Principais distinções entre os sistemas psíquicos (com ênfase para as características dos sistemas pré-consciente e consciente).
As idéias esposadas por Freud a respeito do inconsciente em sua primeira tópica não chegaram a sofrer considerável alteração, mas a elas foram incorporados outros conceitos que formarão a base da chamada 2° tópica, revolucionando sua teoria inicial.

Fonte: FERNANDES, Maria de Fátima.
O inconsciente na filosofia: uma revisão do conceito de não-consciente
na obra de Arthur Schopenhauer e suas relações com o
inconsciente freudiano. Maria de Fátima Fernandes. Guarulhos, 2008.
85 f. 31 cm.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Psicanálise e Filosofia

Desde os seus primeiros idos, a Psicanálise tem estabelecido diálogos com a Filosofia. Um exemplo disso pode ser encontrado na análise que a psicóloga Maria de Fátima Fernandes realizou da obra do filósofo Arthur Schopenhauer, mostrando as relações entre algumas de suas idéias e as posteriores noções freudianas sobre o inconsciente. Publicado recentemente na Revista da Universidade Guarulhos, o artigo de Fernandes resume algumas das principais correlações entre o trabalho do filósofo Schopenhauer e o conceito de inconsciente na Psicanálise. Confira a seguir o link para baixar o texto:

http://revistas.ung.br/index.php/educacao/article/view/548/645

RESUMO: Embora o interesse filosófico por processos não-conscientes possa remontar a Platão, foi só com o advento da Psicopatologia e, mais à frente, da Psicanálise Freudiana, que o inconsciente passou a ser estudado de maneira ostensiva. Essa constitui, entretanto, apenas uma parte da evolução sobre as idéias acerca do inconsciente.Vários foram os filósofos que antes de Freud, abordaram o conceito de processos não-conscientes. Contudo, dentre esses autores aquele que mais se destacou pela sua aproximação com a teoria psicanalítica foi o filósofo Arthur Schopenhauer. A filosofia de Schopenhauer pode ser considerada referência primordial no estudo das relações entre a psicanálise e a filosofia. O propósito central deste trabalho é justamente o de revisar os principais conceitos da obra de Schopenhauer que nos remetem, de uma maneira ou de outra, à noção de inconsciente psicanalítica freudiana. Muitos autores têm demonstrado a importância de se rastrear os fundamentos filosóficos de conceitos da Psicologia e de se estabelecer relações entre a ciência e as demais áreas do saber, o que fortalece a compreensão dos conceitos estudados, localiza-os na história do pensamento humano e indica pontos de discussão relevantes. A discussão sobre o tema pode inclusive suscitar questões relevantes para pesquisas futuras e indicar caminhos no sentido de solucionar lacunas existentes na literatura psicanalítica sobre o inconsciente. Para tanto, foram cumpridos os seguintes objetivos: discutir os antecedentes e fundamentos teóricos da noção psicanalítica freudiana de inconsciente na filosofia de Schopenhauer; verificar a possível influência das contribuições filosóficas de Schopenhauer na elaboração da teoria psicanalítica sobre o inconsciente; averiguar a possível relação entre os conceitos filosóficos schopenhauerianos e avisão de homem e de tratamento propostas pela  psicanálise freudiana, a partir da noção de inconsciente.

domingo, 25 de abril de 2010

As necessidades humanas... na era dos desejos efêmeros.

Todos nós, seres humanos, buscamos suprir nossas necessidades. Sua satisfação depende de uma série de condições sociais, pessoais, econômicas, afetivas, e assim por diante. Sempre que estamos satisfeitos com alguma coisa, tendemos a buscar algo mais amplo, a estabelecer novas necessidades. Mas é preciso diferenciar aquilo que é essencial à vida humana, daquilo que é meramente do campo do prazer efêmero, de uma vontade momentânea ou desejo passageiro, e que pode algumas vezes ser confundida com uma necessidade básica. Ter um celular, um carro ou um automóvel pode ser importante para a maioria das pessoas do mundo contemporâneo, mas essas não constituem necessidades humanas universais, senão exigências ou expectativas de nossa sociedade moderna e ocidental. Além do mais, o desejo por ter um objeto ou produto específico talvez esconda uma necessidade de estima ou status social; o marketing e a propaganda estão constantemente tentando nos convencer de que seus produtos podem suprir nossas necessidades, e que a solução é simples: basta comprá-los. Os psicólogos, no entanto, sabem que esse processo não é tão fácil assim. O desenvolvimento humano caminha a passos lentos e por vezes tortuosos, e é preciso saber diferenciar o que é da ordem da ilusão, e o que constitui efetivamente um autêntico desenvolvimento. Podemos começar com uma teoria simples porém fundamental.
O psicólogo Abraham Maslow propõe um ponto de equilíbrio entre necessidades biológicas e sociais, integrando, dessa maneira, diversos conceitos em teoria da motivação. Segundo ele, as pessoas assumem várias necessidades que competem entre si para expressar-se. Tais necessidades se agrupam hierarquicamente de acordo com as propriedades da pirâmide, sendo que as necessidades mais básicas têm de ser satisfeitas primeiro, para que as demais possam emergir.
Na base da pirâmide, encontramos as necessidades fisiológicas fundamentais, indispensáveis à sobrevivência, como a de comida, água, sono, sexo, temperatura estável, etc. Elas têm de estar consideravelmente satisfeitas para que o indivíduo comece a se preocupar com necessidades mais elevadas.
Ao alcançar uma satisfação razoável de suas demandas fisiológicas, o indivíduo atinge então a segunda camada da pirâmide constituída pelas necessidades de segurança e proteção. A satisfação destas induzirá a busca por amor e pertinência, estima, estética e, finalmente, à Auto-realização, meta primordial de todo ser humano (figura acima). De acordo com Maslow, as pessoas se tornam frustradas quando não conseguem fazer uso de todo o seu talento ou buscar seus interesses verdadeiros.
Dentre as necessidades destacadas por Maslow, as necessidades fisiológicas constituem o fundamento da pirâmide, envolvendo a alimentação, a atividade, a sexualidade, o sono e demais aspectos físicos.

Tendo sanado as necessidades fisiológicas mais urgentes, o indivíduo pode começar a preocupar-se mais detidamente com sua segurança e proteção. Isso envolve não apenas a aquisição de uma moradia adequada, como também uma condição econômica / financeira mínima de sustentabilidade, certo resguardo contra acidentes e possíveis revezes (tais como roubos, maus tratos etc.).
Não basta a uma pessoa ter resolvido sua fome, sede ou sono, ou ainda, ter proporcionado a si um ambiente seguro e previsível. Precisamos todos nos sentir afiliados a determinado grupo, como parte integrante. São as necessidades sociais. É assim que o amor ou o afeto constitui uma das necessidades humanas de maior importância. Haja visto o trabalho de Sigmund Freud acerca da relação afetiva entre mãe e filho desde o nascimento e suas repercussões na vida adulta.
Ao elaborar suas hipóteses em torno de uma hierarquia das necessidades, Maslow apontara também a auto-estima e a estética como elementos da pirâmide. Primeiramente, identificara dois tipos específicos de auto-estima: uma alta e outra baixa. A baixa auto-estima diria respeito à convivência com os demais: necessidade de Status, fama, glória, reconhecimento, atenção, reputação, apreciação, dignidade e certo domínio das situações. A auto-estima alta, por sua vez, teria relação com o respeito por si mesmo, incluindo sentimentos tais como confiança, competência, maestria, independência e liberdade. Nenhuma das duas guarda em si algo de positivo ou negativo; o fato de se chamarem alta e baixa não implica que uma seja melhor que a outra. A versão negativa dessas tendências acabaria culminando em fortes sentimentos de inferioridade e incapacidade de produzir e agir.
Maslow estudou uma pequena amostra de 20 pessoas as quais, segundo ele, haviam alcançado o estágio final de auto-realização. A partir de suas pesquisas, ele afirmara que o número de pessoas auto-realizadas, não deve chegar a 1% da população. Essas pessoas são livres de neuroses e psicoses e quase sempre têm da meia-idade em diante. Para terem alcançado esse último estágio, elas necessariamente resolveram as exigências anteriores ou organizaram-nas de acordo com seu objetivo de auto-realização. Elas têm em comum as seguintes características (ou metanecessidades):
 Possuem uma percepção objetiva da realidade;
 A plena aceitação de sua própria natureza;
 Compromisso e dedicação a algum tipo de trabalho;
 Simplicidade e naturalidade em seu comportamento;
 Necessidade de autonomia, privacidade e independência;
 Experiências místicas ou culminantes (momentos de êxtase, maravilhamento, assombro e deleite intensos);
 Empatia com toda a humanidade e afeição por ela;
 Resistência ao conformismo;
 Estrutura de caráter democrática;
 Atitude de criatividade;
 E um alto grau de interesse social.
Embora raríssimos de se encontrar, indivíduos auto-realizados tendem a exercer um papel importante na história da civilização, pelos seus feitos de natureza grandiosa e sua personalidade marcante. Maslow chegara a estabelecer uma relação geral de pessoas importantes que pareciam cumprir com seus critérios de auto-realização. Dentre elas encontramos Abraham Lincoln, Mahatma Ghandi, Albert Einstein, Albert Shweitzer, Madre Teresa de Calcutá, etc. É notório o fato de uma grande maioria desses indivíduos possuírem idade avançada ou terem alcançado a auto-realização após a meia-idade. Assim como outros teóricos da psicologia (tais como Carl Jung, Erik Erikson, etc.), Maslow enfatizara uma forte relação entre o desenvolvimento final das potencialidades humanas e a velhice ou vida adulta tardia, descentralizando os valores da juventude exaltados pela sociedade de consumo moderna.
Muitas pessoas mal conseguiram deixar as necessidades fisiológicas básicas, pois passam fome e miséria. Outras sanaram relativamente bem essa necessidade, mas vivem em moradias precárias, onde não tem segurança e proteção, talvez como os vitimados pelos deslizamentos recentes no Rio de Janeiro. Outras pessoas têm sua fome sanada, bem como um lar e uma estrutura econômica favorável, mas são afetivamente carentes, ou sofrem sérias dificuldades de auto-estima. As necessidades mais altas na pirâmide não são invariavelmente mais fáceis de resolver, ao contrário do que se pensa; elas também podem ser extremamente danosas aos indivíduos. Na maioria das vezes também, embora muitos indivíduos consigam sanar sua fome e necessidades básicas, ou ter uma casa para morar, eles sempre enfrentarão problemas para manter essas necessidades sendo continuamente satisfeitas; podem passar, por exemplo, por momentos de crise financeira, em que falte o alimento diário, ou ser despejado de casa por não pagar o aluguel.
Por sua vez, aqueles que resolveram melhor suas necessidades básicas, não são apenas por isso pessoas superiores em relação às outras; do ponto de vista moral, elas podem carregar ainda uma série de lacunas, assim como no aspecto intelectual, perceptivo, e assim por diante. Existem várias linhas de desenvolvimento, e em cada uma se pode apresentar problemas ou desvios de percurso. A pirâmide das necessidades é apenas uma das linhas de desenvolvimento humano.
No caso das necessidades mais básicas, a psicoterapia talvez não pudesse ajudar muito. O psicólogo trabalha com a mente e com o comportamento humano. Seu trabalho começa, sobretudo, na terceira parte da pirâmide (amor e pertinência), onde atua nas questões afetivas. Também trabalha a auto-estima, e pode contribuir com o processo de auto-realização. Entretanto, há importantes exceções. Algumas vezes, quando as pessoas são afetadas por transtornos mais graves, como o pânico, a segurança e proteção delas também pode ser um objeto de análise e intervenção do psicólogo. E mesmo que o psicólogo não possa sanar essas necessidades fisiológicas e de proteção material, ele pode auxiliar as pessoas nesse processo. O (a) profissional na Psicologia pode, sem dúvida alguma, trabalhar com indivíduos que, por conta da sua precária condição social, necessitam de ajuda em decorrência dos traumas e das dificuldades psicológicas advindas de uma constante falta de recursos. A pobreza e a miséria não apenas impedem a satisfação de necessidades mais básicas, como podem prejudicar o desenvolvimento dos estágios seguintes, mesmo que o indivíduo tenha sanado depois as suas necessidades básicas. Os traumas que a situação inicial lhe deixaram, podem impedir o alcance de uma auto-estima favorável, ou de uma vida afetiva equilibrada. Isto porque, no nosso mundo, ser pobre não é apenas ter pouco ou nenhum dinheiro, mas ser excluído, marginalizado, descaracterizado como humano. Nesse sentido, não só suas necessidades mais fundamentais lhe foram retiradas, como também as demais que lhe qualificam como humano. Por outro lado, riqueza material não significa afeto ou estima autênticos, e muitas pessoas de elevado nível econômico podem apresentar lacunas ou déficits significativos em seu desenvolvimento. Não se iluda: ao final de tudo, o dinheiro e o consumo lhe ajudarão muito, mas não lhe trarão tudo, e talvez deixem de lado muita coisa importante.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Auto-estima: como se forma nossa auto-imagem? Parte um: educação


Diversas são as pessoas que, em terapia, se queixam de sintomas depressivos tais como baixa auto-estima. Algumas dessas pessoas trazem um histórico de rejeições e insucessos que parecem bastante associados à maneira como enxergam a si próprias, percepção esta nem sempre condizente com suas reais potencialidades e fraquezas. Seu discurso está geralmente repleto de auto-depreciações que não se justificam com base em seus argumentos ou nas qualidades que nelas podemos identificar. Esses sintomas nos fazem pensar em como se forma a imagem que temos de nós mesmos e no quanto ela pode afetar nossas atitudes e comportamentos.
Nossa auto-imagem começa a se construir muito cedo em nossas vidas, desde as primeiras relações com a figura materna (independentemente aqui de quem ocupa essa função na vida de uma pessoa, seja sua mãe biológica ou não). Todos nós adultos tendemos a projetar nas crianças aspectos de nossa própria infância; quando nos relacionamos com elas, acabamos por tratá-las (consciente ou inconscientemente) como gostaríamos de ter sido tratados naquela etapa da vida. Outras vezes, por inveja, atacamos uma criança por ela ser ou ter características e condições que nós não tivemos. Isso acontece freqüentemente com babás que violentam crianças indefesas; algumas dessas mulheres, seja por sua condição social e econômica ou por outros fatores, não tiveram um histórico infantil saudável e prazeroso, mas uma infância que foi marcada por traumas e outras dificuldades. Quando se deparam com crianças que possuem pais amorosos ou preocupados, uma casa confortável, e outras satisfações, bajulações e comodidades, irritam-se, e por inveja, atacam a criança. Noutras vezes ainda, despejam a violência recebida pelos pais contra elas, durante a infância, nas crianças das quais são responsáveis. Esses exemplos ilustram um pouco de como as crianças nos remetem à nossa infância, despertando comportamentos os mais variados.
Mas essa projeção que os adultos fazem de aspectos da sua infância em outras crianças acontece principalmente quando somos pais. A infância de nossos filhos nos remete, de um modo ou de outro, à nossa própria infância; nos nossos filhos, idealizamos muitas das perfeições e dos sonhos que não pudemos realizar quando crianças. Desejamos que sejam melhores do que nós, que realizem o que não pudemos. Queremos lhes oferecer os brinquedos que não tivemos, os passeios que não tivemos, etc. E se não tivemos nada disso, podemos também pensar que nossos filhos devem igualmente ter acesso a poucas coisas, e lutar por sua própria conta para alcançarem o que desejam. Às vezes, damos-lhes todo o limite e repreensão que não tivemos de nossos pais; em outras, damos-lhes pouco limite e afrouxamos demais, assim como esperávamos que fosse a nossa infância (ou como ela de fato foi). Enfim, a educação de nossos filhos dependerá sempre de como aceitamos ou rejeitamos certos aspectos da educação de nossos próprios pais, do quanto vamos ou não manter, em nossa própria conduta, a educação que nos deram.
Considerando estas questões, vemos que a nossa auto-imagem depende também de como seremos vistos pelos nossos pais, e pelas outras pessoas. Quando nascemos, não fomos ainda socializados... estamos ainda à espera de educação. A maneira como vão nos tratar, se vão nos dar carinho, ou nos rejeitar, tudo isso determinará, em grande parte, o modo como trataremos a nós próprios, o quanto gostaremos de nós mesmos. Esse critério, em última instância, não é universal, mas subjetivo. Existem crianças que, mesmo sob uma série de adversidades familiares, sentem-se amadas e protegidas. E isso condicionará fundamentalmente a capacidade delas de se amarem e se protegerem quando se tornarem adultos, e não puderem mais recorrer ao colo dos pais.
Quando os pais criam a respeito dos filhos, uma imagem muito idealizada que não condiz com aquilo que os filhos são, ou quando os pais esperam dos filhos atitudes e comportamentos que os mesmos não correspondem, os pais tendem a rejeitá-los, de um modo ou de outro, de formas mais ou menos diretas, mais ou menos sutis, e a criança é capaz de perceber isso, em pequenos comportamentos e diferenças dos pais. É um grande mito acharmos que criamos a todos os nossos filhos do mesmo jeito; cada filho nasce numa época diferente, desenvolve características de personalidade diferentes, passa por processos de socialização diferentes (dependendo se é menino ou menina, se é o irmão mais velho, do meio, e assim por diante, dependendo dos seus traços físicos e predisposições, de alguma doença ou deficiência física ou mental, etc.). Enfim, os fatores que determinam a personalidade são muitos. E as crianças percebem que os pais os tratam de modo diferenciado, ora favorável, ora desfavoravelmente. Tudo isso influirá na auto-imagem, de muitas formas. A rejeição costuma criar um círculo vicioso, no qual o indivíduo tende a gerar nas pessoas uma tendência a rejeitá-lo sempre de novo, pela piedade que sentem em relação a ele, e pela ausência de amor próprio que sentem emanar dele. Por não se amar, não consegue ser amado pelos outros.
A capacidade de se respeitar, de se perdoar, e mesmo de amar... esses sentimentos são, em parte, construídos pelo ser humano. Embora todo ser humano busque o seu semelhante, de modo a garantir sua sobrevivência, o amor e o respeito socialmente compartilhados são atitudes aprendidas, e não dons inatos! Um bebê se sente bem com o carinho que recebe, mas se houver complicações graves na sua relação com a figura materna e com outros seres humanos, o indivíduo pode não aprender direito como amar e doar carinho. Ele vai sempre esperar do outro, mas não vai aprender a fazer sua parte. O amor que damos depende significativamente do quanto recebemos de amor; assim com o respeito, a estima, e tudo mais.
Muitos outros fatores interferem na auto-imagem, e os discutiremos melhor nas próximas postagens.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Por que temos dificuldade em aceitar mudanças? Parte dois: Os Mecanismos de Defesa


Por Maria de Fátima Fernandes, CRP 06/9226

Outra questão muito importante quando se abordam as razões de as pessoas terem dificuldade em aceitar os processos de mudança e transformação que caracterizam a vida, é o tema dos mecanismos de defesa do ego. Mas o que significa afinal “ego”? De um modo simples, podemos definir o ego como o conjunto de representações que temos a nosso respeito, nosso auto-conceito. Esse conjunto de representações é construído ao longo da nossa vida, pois não nasce pronto, ainda que existam controvérsias sobre quando exatamente o processo de desenvolvimento egóico se inicia. Mas o ego não é apenas uma representação pessoal; ele é aquela parte da nossa personalidade voltada para a adaptação do organismo frente às condições internas e externas. Em outras palavras, o ego está preocupado em manter o equilíbrio entre as suas necessidades interiores, psicológicas e fisiológicas, e as exigências do meio social. É uma instância reguladora, reconciliadora, que busca um consenso entre aquilo que desejamos e a necessidade, também importante, de corresponder a certas normas e valores morais e sociais. O ego está voltado, portanto, para a nossa adaptação. Já os mecanismos de defesa do ego, são operações que visam protegê-lo dessas diferentes pressões, internas ou externas. Os mecanismos de defesa predominantes diferem segundo o tipo de doença considerada, a etapa de desenvolvimento em que se encontra o indivíduo e o grau de elaboração do conflito – isto é, a capacidade da pessoa em lidar ou não com uma determinada situação problemática.

Quando o Ego está consciente das condições em que está inserido, ele consegue se sair bem das situações difíceis, sendo lógico, objetivo e racional, mas quando se desencadeiam circunstâncias para as quais ele não está preparado, e que possam vir a provocar sentimentos de culpa ou ansiedade, o Ego perde as três qualidades citadas. É quando a ansiedade (ou sinal de angústia), de forma inconsciente, ativa uma série de mecanismos de defesa, com o fim de proteger o Ego contra uma dor psíquica iminente.

Há vários mecanismos de defesa, sendo alguns mais eficientes do que outros. Há os que exigem menos gasto de energia para funcionar a contento. Outros são menos satisfatórios para proteger o Ego, mas todos requerem gastos consideráveis de energia psíquica.

As defesas do ego podem dividir-se em:

a)Defesas bem sucedidas, que geram a cessação daquilo que se rejeita

b)Defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir a irrupção dos impulsos rejeitados.Tendem a gerar situações constrangedoras, compulsão à repetição e fadiga.

As defesas patológicas (doentias) – dentre as quais se encontram as neuroses – pertencem à segunda categoria. Quando os impulsos internos não encontram descarga na consciência, por conta das pressões externas, por exemplo, mas permanecem suspensos no inconsciente e ainda aumentam pelo funcionamento continuado das suas fontes físicas, produz-se um estado de tensão, com a possibilidade de irrupção (como, por exemplo, no transtorno de pânico ou no surto psicótico).

Nem sempre, porém, se definem com nitidez as fronteiras entre as duas categorias. Uma defesa bem sucedida pode às vezes atuar de forma doentia (quando excessiva, no caso, por exemplo, de pessoas que trabalham além da conta para esquecer os problemas); por outro lado, certas defesas freqüentemente doentias, são até aceitáveis ou compreensíveis em situações de grande tensão (como quando uma pessoa desata a rir, compulsiva e descontroladamente, num enterro ou velório, frente à dolorosa morte de um parente; ou quando, por exemplo, a pessoa nega que tem uma doença grave e continua a viver como se estivesse bem).

A seguir, vai uma lista dos principais mecanismos de defesa, suas características, vantagens e desvantagens:

Repressão: É a operação psíquica que pretende fazer desaparecer, da consciência, impulsos ameaçadores, sentimentos, desejos, ou seja, conteúdos desagradáveis ou inoportunos. A repressão ocorre quando tentamos desviar da mente consciente uma idéia, afeto, etc. (Ex: alguém que é religioso(a) ou casado(a) e que sente um desejo sexual por outra pessoa e reprime esse desejo; ou alguém que manifesta a vontade de agredir alguém, e reprime tal iniciativa, tentando esquecer seus sentimentos ou apagá-los da mente. Quando se diz que uma pessoa é “reprimida” estamos fazendo referência a uma pessoa que tolhe suas vontades, que impede a si mesma de ser feliz, de expressar seus desejos. A repressão é um mecanismo comum, mas pouco eficaz, pois o que está reprimido tende sempre a se tornar consciente de novo, nunca vai embora totalmente.

Sublimação: É o mais eficaz dos mecanismos de defesa, na medida em que canaliza os impulsos do indivíduo para uma postura socialmente útil e aceitável (realizações científicas, religiosas, artísticas, etc.). As defesas bem sucedidas podem colocar-se sob o título de sublimação, expressão que não designa necessariamente um mecanismo específico. Qualquer defesa pode ser considerada sublimação se for utilizada para fins socialmente úteis. O fator comum está em que, sob a influência do ego, a finalidade ou o objeto (ou um e outro) se transforma sem bloquear a descarga adequada. Na infância, a busca pela sublimação é facilitada pelas identificações com as pessoas adultas (a mãe fazendo as atividades de casa, o pai trabalhando, a família orando, etc.). Nas brincadeiras e nos jogos, a criança também pode sublimar aos poucos seus impulsos primitivos de agressividade e sexualidade, atenuando-os com o tempo. As indústrias de videogame sabem disso e apelam para esse aspecto da mente infantil. A criança muito violenta é quase sempre um sinal de incapacidade da sublimação, embora seja comum nessa idade as manifestações desse tipo (ex: brincadeiras de “briga” entre os meninos). Nem sempre o impulso precisa ser drasticamente modificado para ocorrer sublimação. Pode-se optar, evidentemente, por realizar um desejo sexual ou outro tipo de desejo livremente, ao invés de sublimá-lo; a sublimação nem sempre garante a total utilização da energia proveniente do impulso modificado.

Deslocamento: É um processo psíquico através do qual o todo é representado por uma parte ou vice-versa (é aquilo que se pode chamar de “generalização”). Esse mecanismo não tem qualquer compromisso com a lógica. É o caso de alguém que tendo tido uma experiência desagradável com um policial, reage desdenhosamente em relação a todos os policiais. Ou alguém que, tendo uma experiência ruim dentro de um relacionamento amoroso, começa a achar que todos os relacionamentos amorosos são ruins e infrutíferos, ou que todos os homens ou todas as mulheres não prestam, já que não se deu bem com a pessoa do relacionamento anterior (ao invés de pensar no seu papel). Por isso o nome ‘deslocamento’: a energia foi deslocada de uma situação para outra semelhante. O deslocamento também é comum nos sonhos, quando uma pessoa é representada por outra (uma mesma pessoa no sonho pode parecer ter o rosto de várias outras). Acontece também na relação do cliente com o psicoterapeuta (o fenômeno que Freud chamava de transferência). O cliente passa a enxergar no(a) terapeuta, figuras do seu passado (seu pai, sua mãe, sua esposa ou esposo, etc.). Nesses casos, a pessoa passa a agir em relação ao terapeuta como se ele fosse a outra pessoa; se teve uma relação difícil com o pai, vai deslocá-la para o terapeuta e briga com ele como fazia com o pai. É como se o Ego estivesse tentando evitar entrar em contato com o conteúdo, defendendo-se pelo deslocamento do mesmo.

Racionalização: É uma forma de substituir por boas razões ou justificativas uma determinada conduta que exija explicações da parte de quem a adota. É uma forma de mentira inconsciente, colocada no lugar daquilo que foi reprimido. Ao invés de admitir que errou numa dada circunstância, por exemplo, o indivíduo tentará justificar sua ação de diversas maneiras. A racionalização é um processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento, que ele tenha expressado. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada. Como qualquer comportamento pode admitir uma explicação racional, muitas vezes é difícil decidir se esta é falha ou não. No tratamento psicanalítico encontraríamos todos os intermediários entre os dois extremos; em certos casos é fácil demonstrar ao paciente o caráter artificial das explicações que ele dá, e incitá-lo assim a não se contentar com elas. Em outros casos, os motivos racionais são particularmente sólidos, mas mesmo assim pode ser útil colocá-los “entre parênteses” para descobrir as satisfações ou as defesas inconscientes que a eles se juntam. Um exemplo é o da pessoa que justifica sua neurose obsessiva como hábito de higiene (lavar as mãos constantemente). Ela pode até possuir explicações muito boas, mas ninguém deixará de reconhecer o absurdo de suas ações exageradas em querer sempre se limpar. A racionalização também é uma forma de barrar o afeto, deixando livre apenas a idéia associada ao conflito. É comum em indivíduos que só usam o intelecto e a objetividade para resolver os problemas, nunca enfrentando as dificuldades diretamente ou nunca se deixando envolver emocionalmente.

Projeção: Este mecanismo se manifesta quando o Ego não admite reconhecer um impulso inaceitável proveniente dele mesmo e o atribui a outra pessoa. É o caso do menino que gostaria de roubar frutas do vizinho sem, entretanto, ter coragem para fazê-lo, e diz que soube que um menino, na mesma rua, esteve tentando pular o muro do vizinho. Na projeção, atribuímos a outra pessoa aquilo que está em nós, vemos nela aquilo que é uma vontade ou sentimento nosso. Sinto algo em mim, mas digo que é outra pessoa quem está sentindo. A pessoa que procede assim não tem, evidentemente, consciência disso. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito primitiva, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar “normais”, como a superstição. As fofocas são ótimas ocasiões para o exercício da projeção; na maior parte das vezes, as pessoas acusam os outros de estar fazendo algo que, na verdade, elas, no seu íntimo, também gostariam de estar fazendo.

Identificação: A identificação pode ser definida, segundo Freud (1921/1976) “como a mais remota [mais primitiva e original] expressão de um laço emocional com outra pessoa”. Nela, o indivíduo esforça-se por assumir as características do objeto que lhe serve de modelo, moldando seu próprio ego segundo o aspecto daquele a quem se dirige a identificação. Na identificação, queremos ser como aquele ou aquela com que nos identificamos, como a menina que quer ser professora quando crescer. No entanto, esse processo é bem diferente de uma relação verdadeira, na qual o indivíduo reconhece o outro como alguém distinto em relação a si próprio, baseando seu relacionamento com ele nessa distinção. Na identificação, a pessoa não se vê como diferente da outra; ela quer ser uma cópia do outro. Existe assim uma diferença entre identificação e amor objetal. Na relação de amor objetal, há um interesse real pela outra pessoa, sendo a libido dirigida para o objeto de amor, e não em direção ao próprio indivíduo. No amor, eu reconheço que o outro é diferente de mim, e que eu sou diferente do outro. A identificação costuma basear-se, portanto, em distorções da imagem do outro, tendendo a ser um processo parcial, em que apenas uma ou poucas características da outra pessoa são internalizadas pelo ego, ocasionando assim um relacionamento empobrecido, no qual esse outro jamais é considerado em sua inteireza. A identificação tende a constituir relações extremadas de apego e insegurança, em que o outro é visto, ou como totalmente mal, ou como totalmente bom, não se admitindo a ambivalência do objeto de amor. Todavia, a identificação também tem suas vantagens. Enquanto antecessora da relação objetal, ela prepara o caminho para um laço emocional efetivo. A qualidade comum a duas pessoas, elemento que as une na identificação, pode tornar-se assim o sucedâneo para uma relação de amor efetiva. A identificação também está na base da formação da personalidade. É por meio da identificação com os nossos pais e com outras pessoas de referências nas nossas vidas (professores(as), amigos(as), etc.) que a personalidade vai se constituindo.

Regressão: É o processo psíquico em que o Ego recua, fugindo de situações conflituosas atuais, para um estágio anterior do desenvolvimento. É o caso do jovem que, para chamar a atenção dos pais ou dos que estão à sua volta, regride para uma condição infantil, e faz birra. Ou o caso de alguém que depois de repetidas frustrações na área sexual, regride, para obter satisfações na fase oral, como o bebê, passando a comer em excesso. Para fugir dos problemas que o indivíduo enfrenta hoje, ele foge para o passado, para uma situação em que ele era criança e, portanto, menos responsável pelas situações da vida. Nem sempre a regressão se mostra clara: às vezes, as atitudes de solicitação que o indivíduo faz por atenção, podem ser interpretadas como justas, quando na verdade são imaturas. Nem mesmo o indivíduo pode se dar conta da infantilidade ou do caráter regressivo de seu comportamento.

Formação reativa: É um processo psíquico que se caracteriza pela adoção de uma atitude de sentido oposto a um desejo que tenha sido reprimido, constituindo-se, então, numa reação contra ele. Exemplo: a pessoa que manifesta agressividade contra outra, mas que reprime esse sentimento e passa a fazer o contrário, sendo atenciosa e carinhosa com a pessoa pela qual tem raiva. Ou também o avesso: a pessoa sente amor, mas nega esse sentimento, e passa a maltratar o outro como forma de se afastar e não sentir mais o sentimento amoroso inicial. O sentimento reprimido, contudo, permanece no inconsciente e pode vir à tona em momentos de explosão emocional. Nessas situações, a raiva reprimida vem à tona, e a pessoa agride o outro pelo qual tanto faz bem. Ou o oposto: da constante agressividade, a pessoa parte para uma situação de choro e pede desculpas, mostrando um afeto e uma preocupação que não haviam aparecido antes. Os efeitos adversos da formação reativa podem vir também em conta gotas: o indivíduo reprime a raiva, mas acaba expressando-a em comentários irônicos e jocosos, ou brincadeiras aparentemente inocentes; ou apresenta às vezes uma atitude irritante de reclamações pontuais, mas constantes, que denotam sua insatisfação, embora de forma velada e não violenta.

Fantasia: A fantasia consiste na realização imaginária ou simbólica de um desejo não satisfeito. Acontece com a criança, quando não pode ter um brinquedo ou doce que gostaria de ter, e passa a fantasiar a si mesma degustando do alimento ou brincando com o que queria. Também ocorre nos adultos. A fantasia é um mecanismo pouco eficaz, pois em algum momento o indivíduo perceberá que não realizou de fato o que queria. Ao contrário da imaginação, que cria novas fontes de entretenimento, a fantasia reproduz distorcidamente a realidade, sem realizar plenamente o desejo. Num longo prazo, pode inclusive acabar afastando o indivíduo de suas necessidades adaptativas, fechando-o num mundinho irreal, criado por ele mesmo.

Compensação: É o processo psíquico em que o indivíduo tenta compensar alguma deficiência ou imagem negativa que tem de si próprio, por meio de outro aspecto que o caracterize positivamente. É o exemplo do deficiente que se dedica a um determinado esporte para mostrar sua capacidade de superação, ou o indivíduo que se vê como alguém feio e decide destacar-se nos estudos. Em alguns casos, pode ser um mecanismo benéfico, desde que não recaia em formas de compensação prejudiciais (Exemplo: consumo exagerado de bebidas).

Expiação: É o processo psíquico em que o indivíduo quer pagar pelo seu erro imediatamente. Auto-flagelação (pecador). “Já que fiz tal coisa, não mereço ter outra” ou “devo pagar sofrendo”, etc.” A expiação está na base de muitos quadros de sado-masoquismo. Ela também pode se esconder em formas mais ou menos conscientes de auto-sabotagem: o indivíduo sabota suas realizações, por querer se auto-flagelar.

Negação: Processo pelo qual o sujeito nega que um pensamento, atitude, sentimento pertençam a ele. É uma espécie de cegueira: o indivíduo não consegue se reconhecer como portador daquilo que ele mesmo sente ou faz, e nega. Nesse caso, pode não haver projeção ou outro mecanismo envolvido. O indivíduo apenas se recusa a ver.

Todos esses exemplos ilustram os diferentes tipos de mecanismos que usamos para lidar com as situações da vida. Alguns deles são mais úteis, mas todos apresentam suas limitações. Quanto mais o indivíduo tem dificuldade em lidar com seus problemas, mais fará uso desses mecanismos, tentando impedir a mudança, a transformação, de ocorrerem.