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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Por que temos dificuldade em aceitar mudanças? Uma Psicanálise da Transformação (Parte Um)

Por Maria de Fátima Fernandes, CRP 06/9226


O Homem nasce livre e por todo o lado
Está acorrentado. Mesmo quem se julga senhor
Dos outros, esse ainda é mais escravo do que eles. Como se fez esta transformação? Não sei.
- Jean Jacques Rousseau

 Por que temos tanta dificuldade em aceitar mudanças individuais, familiares, profissionais e matrimoniais? Durante a nossa vida, tendemos a adotar certas posturas, crenças, valores que frente a situações novas e inusitadas parecem não funcionar e se articular do mesmo modo. Por vezes, a lacuna entre as exigências adaptativas e nosso próprio modelo valorativo torna-se tão acentuadamente declarada, que o conflito originado se intensifica, gerando sintomas físicos e psicológicos dos mais variados. Nesse instante, estejamos conscientes disso ou não, é tempo de mudar.

Todo o processo de cura implica alguma mudança ou transformação. A atitude diante da mudança pode ser positiva e quando isto se dá, falamos então de atitude mutante, isto é, de flexibilidade e dinamismo. Mas quando a atitude é negativa, chamamos de resistência à mudança.

Dificilmente lidamos satisfatoriamente com grandes reviravoltas em nossas vidas, ou com situações em que algo de muito valor para nós, seja concreto ou subjetivo, pareça estar ameaçado. Em geral, apegamo-nos às nossas concepções e à maneira própria como construímos a realidade ou a nossa percepção dela (crenças) e resistimos veementemente antes de abandonar tudo isso, ainda que reconheçamos suas possíveis limitações. Num certo sentido, forjamos nossa identidade e individualidade, baseados em uma visão de mundo bastante específica; sentimos medo da mudança, resistimos e nos afastamos de suas conseqüências.

Num primeiro momento, há sempre o medo da perda. Tememos o desconhecido e diante dele sentimos que não estamos suficientemente preparados. Acostumamo-nos a ser e agir fundamentados em padrões e medidas previamente estabelecidos, evitando a ansiedade decorrente de um confronto direto com a realidade de nossas experiências. Dessa forma, defendemo-nos, receosos dos benefícios e garantias envolvidos em um processo de mudança significativo. Como diz o provérbio popular: “mais vale o mal conhecido do que o bom por conhecer”.

Às vezes, o medo atinge proporções ainda maiores e cresce a incapacidade em aceitar a situação. Daí, podemos simplesmente refugiar-se do conflito ancorando-se num quadro depressivo ou, quem sabe, encontrar um “bode expiatório” que nos sirva de um bom “saco de pancadas”. É comum o fato de as pessoas descarregarem sua própria insatisfação e agressividade “no quintal do vizinho” o que, aparentemente, alivia a angústia e oferece uma explicação ou significado provisório ao dilema enfrentado. No entanto, se quisermos, de fato, alcançar uma cura integral, teremos, em última instância, que acertar nossas contas com a realidade (seja ela a realidade individual ou social), ao invés de “fazer de conta” que o problema não é conosco, senão com o vizinho ou com o mundo. E isso, sem dúvida, cabe tanto a uma única pessoa quanto ao grupo do qual ela faz parte.

A concepção do ser humano enquanto alguém isolado ou individualista constitui uma idéia bastante equivocada. O Homem é, acima de tudo, um ser social, e não sobrevive a não ser em relação com outros homens. Todo o indivíduo, desde o nascimento (e mesmo antes), está inserido num grupo; de sua participação e adequação a determinado contexto sócio-cultural é que dependem a sua sobrevivência e desenvolvimento futuros.

O primeiro dentre os grupos, núcleo fundamental de formação da identidade, é a Família. Nela aprendemos a perceber o mundo e a nos situarmos nele. Dentro dela reproduzem-se, cotidianamente e em escala reduzida, as construções imaginárias, o arcabouço cultural, as contradições, os preconceitos e estereótipos de um povo. É ainda na Família que assumimos os papéis sociais mais duradouros de pai, mãe, filho, irmão, etc.

Seguindo o mesmo raciocino usado para explicar o funcionamento de um único indivíduo, podemos dizer que a Família também passa por momentos de transição em que o mecanismo de resistência à mudança está presente e interfere na adaptação ativa de seus membros. Isso nos permite dizer ainda que a doença mental ou psicossomática de um indivíduo, frente a uma situação de difícil mudança (e, portanto, de stress), não deve ser atribuída exclusivamente a essa pessoa; antes, deve ser encarada enquanto resultado de uma patologia grupal. Diríamos que o paciente que enuncia algo (seja um sintoma ou uma queixa qualquer) é ao mesmo tempo, porta-voz de si e dos problemas e conflitos enfrentados pelo seu grupo familiar.

Para entender melhor, comparemos a família ao funcionamento do corpo humano. Há certos órgãos que costumam serem depositários de todas as tensões, e chega um momento no qual a quantidade de depósito supera sua resistência; surge então a doença (úlcera, infarto, asma, hipertensão, etc.). Semelhantemente, o porta-voz assume o peso do depósito maciço feita pelos demais, sua resistência diminui após certo tempo e lhe sobrevêm as complicações físicas e emotivas. O doente desempenha assim um papel importantíssimo no grupo: o de depositário de aspectos negativos ou atemorizantes.

Trata-se de um fenômeno bem conhecido em Psicologia, ao qual damos o nome de projeção. É um conceito razoavelmente simples de se entender e extremamente útil, não só ao psicólogo, mas a quem quer que se interesse pelo comportamento humano. Como vimos antes, nem sempre estamos prontos para mudar. Assim sendo, em nossas relações, nem sempre estamos dispostos a assumir certos “defeitos” e a lidar com a angústia e a ansiedade geradas pelo reconhecimento de nossas contradições. Estas se tornam, então, ameaçadoras e dignas de afastamento; afinal, quem quer ser contraditório e imperfeito? Melhor seria se nada disso existisse em nós; que só houvesse características positivas e socialmente aceitas. Nesse “mato sem cachorro”, a única saída, na maioria dos casos, é imaginar que “nada disso me pertence, efetivamente; não é meu, eu não sou assim... ele(a) ou eles(as) é que são assim”. Desse modo, eu me esquivo suavemente do compromisso desagradável com a minha “sombra” e passo a enxergá-la não mais sobre meus pés, mas aos pés de outrem. Ela agora está projetada muito além de mim, embora ainda me pertença, sem que eu mesmo saiba ou tenha consciência disso.

Dentro de um grupo, o fenômeno descrito é bastante comum e pode-se dizer que constitui a chave para entendermos o conceito de porta-voz. O porta-voz é a pessoa que serve de objeto às projeções grupais. Certos aspectos seus falam em nome de si e de todo o restante e é basicamente nesse sentido que se dá a escolha de um ou mais porta-vozes. Muitas crianças que recebem atendimento psicoterapêutico infantil são porta-vozes em seus lares. Elas sofrem não porque sejam doentes, mas porque ficaram assim em decorrência da família, de servirem como um receptáculo para os problemas familiares.

Felizmente ou infelizmente, a projeção é um fato do qual não temos como nos desvencilhar completamente. Há quem diga ser ela um recurso humano indispensável, uma útil defesa contra a ansiedade e a angústia. O seu uso exagerado, no entanto, tende a enrijecer as oportunidades de crescimento, favorecendo condutas irrealistas e prejudiciais; também parece indicar a necessidade de um auxílio terapêutico especializado.

Mas o processo de mudanças, seja individual, seja familiar, grupal, etc., nunca é um processo simples. E isso é assim porque embora haja um desejo de nossa parte em mudar, sabemos que a mudança pode implicar grandes transformações às quais não queremos correr o risco, até por conta daquilo que em Psicologia chamamos de Ganho secundário. Por exemplo: muitas pessoas se sentem infelizes em seus casamentos, e tentam levá-lo adiante por anos a fio, quando, algumas vezes, o melhor a se fazer é assumir a separação. Contudo, nesse meio tempo, a pessoa foi se acostumando com a condição financeira do casal, com as mordomias, com a segurança de ter alguém conhecido e previsível ao lado, e assim por diante. Parece ser fácil se desfazer dessas coisas para alguns, mas para outros não é. Alguns casais também evitam separar-se por conta dos filhos, temendo que estes fiquem traumatizados ou deixem de gostar dos pais. Novamente, o medo aparece, impedindo uma mudança que pode ser benéfica. A aceitação dos filhos dependerá sempre de como os pais se separam. Eles podem se separar como inimigos e usar os filhos como um meio de atacar um ao outro, fazendo chantagens e afastando a criança do outro cônjuge; ou podem optar por uma separação mais amistosa, tentando, pelo menos, não deixar que seus conflitos interfiram no desenvolvimento de seus filhos. Nesse último caso, é mais fácil a criança compreender, pois não se sentirá culpada por nada, e embora sofra, conseguirá lidar melhor com esse processo, se houver honestidade e sinceridade por parte dos pais. É importante lembrar que nem sempre a transformação, em um casamento, implica separação. Os cônjuges podem optar por permanecerem juntos, mas buscar, ainda assim, uma transformação no seu dia-a-dia, na maneira como lidam um com o outro, na sua rotina, na sua vida sexual, e assim por diante. Algo que nos caracteriza como seres humanos, é a nossa criatividade para adaptação e mudança. Podemos inovar de inúmeras formas, e a psicoterapia pode auxiliar muito nesse processo, ajudando a resgatar o relacionamento amoroso.


Ainda a respeito da mudança, devemos lembrar que existem fatores inconscientes interferindo nesse processo. A maioria das pessoas não muda, não porque não quer mudar, mas porque não consegue. Uma parte dessa pessoa deseja curar-se; a outra parte está apavorada e procurará defender-se o quanto puder das eventuais mudanças. Devemos partir do pressuposto de que as pessoas nem sempre (ou quase nunca) estão devidamente esclarecidas a respeito de si próprias. Em Psicologia sabemos, por exemplo, que certos padrões de comportamento podem tornar-se automáticos, passando a constituir um estilo de resposta habitual e involuntário. É mais ou menos como dirigir um carro e trocar as marchas sem se aperceber disso; a ação tornou-se natural, inconsciente. O problema é quando “aprendemos” a fugir de nossas tarefas e responsabilidades e essa atitude passa a fazer parte integral da maneira como agimos e pensamos. Esta, na verdade, é a base daquilo que se chama muitas vezes de auto-sabotagem. A psicoterapia pode ajudar no processo de conscientização, fornecendo recursos para o indivíduo aceitar suas dificuldades e limitações, e confrontar seus medos.

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