Receba avisos sobre novas postagens diretamente em seu e-mail:

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Psicopatia: mitos e verdades

O PSICOPATA NUMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

A psicopatia tem sido encaixada, ao longo do tempo, numa infinidade de nomenclaturas, mas a grande verdade é que, apesar das várias mudanças ocorridas na definição do termo, pouca coisa nas conceituações atuais é realmente nova quanto à descrição do indivíduo psicopata. Mesmo as definições mais recentes como transtorno de conduta, transtorno de personalidade anti-social, sociopatia etc. apenas atualizam o nome, não o fato em si, o fenômeno. As palavras utilizadas para se designar o indivíduo psicopata sofreram alterações no decorrer dos anos, como resultado das próprias mudanças sócio-culturais, que culminaram gradativamente numa forma mais polida, mais técnica e menos associada ao senso-comum, de referir-se à Psicopatia. Inicialmente, por volta de 1800, eram empregados os termos insanidade moral, loucura moral, demência moral, estados de degeneração etc. Hoje, o fato de nos referirmos ao psicopata como alguém portador de um transtorno anti-social, não modifica em nada suas características, as quais permaneceram as mesmas desde sempre, ainda que possamos considerar a nossa sociedade atual uma grande “fazedora” de psicopatas (PIROLI, 1997; SHINE, 2001).

A descrição do psicopata, em termos do seu comportamento e outros elementos observáveis, é igual tanto para a psiquiatria quanto para a psicanálise. A diferença fundamental reside no fato de que, enquanto as concepções clássicas (ou psiquiátricas) permanecem atreladas ao observável e não discriminam o aspecto individual daquele que é universal / genérico, a psicanálise propõe-se justamente a devassar o indivíduo psicopata, suas motivações internas, sua vida psíquica. Dessa maneira, como afirma Piroli (1997, p. 118):

O embasamento que as concepções psicanalíticas nos oferece (sic) não modifica em absoluto a descrição clássica do comportamento de um psicopata, porém permite a discriminação do comportamento específico desses indivíduos. É com o “porquê” do comportamento que temos essa discriminação.

As principais características do psicopata na concepção psicanalítica variam segundo diferentes autores, sendo possível, no entanto, como propõem Piroli (1997), resumi-las todas de acordo com certas colocações gerais:

- o psicopata é um perverso e a psicopatia se insere, portanto, na categoria das perversões;
- seu comportamento desregrado e seu desrespeito às normas derivam de uma transgressão à lei do pai (estabelecida pelo complexo de Édipo);
- o psicopata é portador de um ego clivado, sendo que uma parte dele mantém contato com o mundo externo, dando a aparência de normalidade e através da qual ele se mostra muito sedutor e agradável, porém, de outro lado, seu ego está também muito ocupado com ataques e defesas fantasiosas, o que o faz sempre desconfiado e perseguido, não conseguindo manter seus relacionamentos de forma duradoura e evitando ocasiões públicas, por não conseguir lidar com muitas pessoas ao mesmo tempo;
- sua capacidade em utilizar os outros e seu parasitismo advém do fato de que as pessoas são consideradas por ele como um prolongamento de si mesmo, servindo para realizar seus desejos. Em contrapartida, é negado todo e qualquer valor aos outros;
- ele é agressivo, brutal, criminoso por estar, a todo o momento, ocupado com suas fantasias onipotentes de ataque e defesa;
- sua incapacidade em experimentar culpa, do ponto de vista consciente, provém de um superego extremamente arcaico e impiedoso. Mas inconscientemente, a culpa do psicopata é imensa e ele a projeta nos outros, culpando-os por suas próprias ações;
- o psicopata não sente amor, havendo um predomínio de sentimentos hostis, resultante de um fracasso em suas primeiras relações objetais e na função de reparação;
- não aprende com a experiência, pois não há “tempo” para buscar o mundo externo, de tão imerso que o psicopata se encontra em suas fantasias onipotentes de ataque e defesa persecutórias;
- ele atua ao invés de simbolizar, pois não é capaz de diferenciar o símbolo do objeto (ele está preso na equação simbólica) caracterizando assim um pensamento deficitário.

OS PAIS DO PSICOPATA

Os pais de um psicopata são, em geral, pessoas incapazes de elaborar perdas e tendem, normalmente, a estabelecer entre si e com outras pessoas, um vínculo mal integrado dentro de uma relação sufocante e simbiótica. Por não conseguirem elaborar o luto, característico das situações de perda, tornam-se incapazes, consequentemente, de auxiliar o bebê a elaborar seus primeiros lutos. Os pais do psicopata relacionam-se com ele de forma excessivamente ambivalente, ora considerando-o um prolongamento de si e tratando-o com mimo e conivência exagerados, ora tratando-o de maneira fria e distante. Quase sempre, o psicopata é o tipo de bebê que não foi realmente desejado, principalmente por ter sido uma possível ameaça à estabilidade da relação dual marido-esposa (PIROLI, 1997).

As trocas afetivas entre o casal e entre estes e o bebê são minguadas, supervalorizando-se tudo o que é superficial e externo, como bens materiais. Estes aspectos são aos poucos internalizados como valores pela criança. Os pais do psicopata tendem também a refletir muito da nossa sociedade atual, que vive hoje uma crise intensa e perturbadora no campo familiar, e uma ênfase cada vez maior no ter ao invés do ser. Desse modo, o psicopata cresce, não raro, dentro de relações familiares permeadas pela hostilidade, ciúme, promiscuidade, irresponsabilidade, relacionamentos extraconjugais e onde o casal se comporta como pessoas solteiras, cada qual preocupado com seus próprios interesses. Nessa situação toda, o filho assume o papel doloroso de servir como palco e receptáculo das identificações projetivas dos pais (SHINE, 2001).

A mãe do psicopata assume, geralmente, características quase autísticas (isto é, auto-centradas, egocêntricas), estabelecendo uma relação de dependência e simbiose com as pessoas, o marido e também com o filho. Ela exige assim o amor e a atenção que não teve do marido ou dos outros do seu próprio filho, visto como uma mera extensão sua. Ela pode até ser muito amorosa, mas esse excesso de amor, enquanto resultado do amor que ela tentara depositar em vão no marido, sufoca a criança e apresenta a ela um pai inconsistente, fraco, débil, desvalorizando-o, a partir da criação de um conluio com o filho. A mãe do psicopata incita este desde cedo à burla da lei do pai (PIROLI, 1997).

Outra característica da mãe do psicopata é sua falha na função de reverie, que consiste na capacidade de metabolizar angústias, desconfortos e outras sensações insuportáveis para este bebê, devolvendo-as suficientemente modificadas para que o bebezinho as possa suportar. A mãe do psicopata não só devolve a ele suas identificações projetivas, tal qual foram enviadas, como ainda introduz nele as suas próprias identificações. Isto gera um extremo horror na criança e uma sobrecarga no seu psiquismo. A única solução visualizada pelo mesmo é a da onisciência e onipotência, que irão caracterizá-lo dali por diante. Também advém daí a sua condição de constante ataque e defesa ao mundo externo e sua persecutoriedade. O indivíduo cria assim uma forma megalômana de funcionamento mental, onde a realidade é negada e as condições de bem e mal, certo e errado, não existem como estipuladas convencionalmente. Ao atuar, por meio do crime, ele alivia dores psíquicas insuportáveis e insustentáveis (PIROLI, 1997).

Por sua vez, o pai do psicopata é o indivíduo tipicamente autoritário e rígido, despótico e narcisista, que impõe de maneira severa sua lei, sendo assimilado pela criança como uma autoridade mágica, que embora seja sempre burlada pelo psicopata, é, de outro lado, sempre reconhecida por ele. Mas esse pai também pode ser o contrário, aquele do tipo conivente e indiferente, o pai desprezível, envolto na drogadição, no alcoolismo, num histórico de furtos ou de delírios mais graves. Em ambos os casos, é cobrada do filho uma postura sempre perfeccionista, onde o psicopata não pode errar nunca. Se ocorrerem falhas, elas serão negadas, ocultadas ou severamente castigadas. Daí a maior importância atribuída pelo psicopata à aparência e à mentira do que à verdade.

PSICOPATIA E SOCIEDADE

A questão da psicopatia passa necessariamente pela do tratamento. É possível tratar um psicopata? Ou a sociedade deve simplesmente mantê-lo aprisionado e longe de todos os outros? Independentemente das possibilidades de intervenção clínica da psicopatia, que serão também abordadas neste trabalho, o tema é de relevância por si só enquanto reflexão crítica sobre nossa sociedade. Talvez o psicopata não seja unicamente fruto da sociedade, mas esta pode ou não aprender a lidar com ele, o que envolve, inegavelmente, uma questão ética. Como diria Shine (2001, p.131): “Lidar com o psicopata é lidar com a problemática ética da conduta”.

Diante de um indivíduo tão violento ou inescrupuloso como o psicopata, um “demente moral” como o tratavam as definições clássicas, ficamos cara a cara com as nossas próprias tendências psicopáticas. Embora lutemos veementemente contra os horrores da criminalidade e da violência cometidas pelo psicopata, não podemos negar que de certa forma suscitamos isso como parte de nossa sociedade, o que se pode observar nos filmes, seriados de televisão e no interesse de muitas pessoas pelos casos de assassinos seriais. Como nos fala Jung (1946/1990, p.17):

A sensação de todo crime provoca o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, demonstrando que todo mundo, desde que não seja insensível ou apático, é excitado pelo crime. Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma em mal, na medida em que acende o mal na própria alma. O assassinato acontece, dessa forma, dentro de cada um e de todos. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção.

Assim, além da questão ética que a psicopatia nos coloca perante a clínica, está uma preocupação no sentido de que as tendências anti-sociais deixem de proliferar. Hoje tem se falado muito numa “psicopatia comunitária” ou “subcriminal”, atentando para o fato de que o psicopata nem sempre é aquele que vemos nos filmes, que comete crimes e mata inúmeras pessoas. Ele também pode ser o vizinho ou o colega de trabalho, que sorrateiramente e sem piedade, anula as chances de crescimento profissional ou o bem-estar dos que estão à sua volta. Psicopatas com habilidades de manipulação e suficientemente inteligentes podem adentrar uma empresa sem grandes esforços e passarem despercebidos enquanto tais. Na verdade, a aparência de certo grau de inteligência e o charme e sedução com que atua, pode inclusive ser determinante na aceitação do psicopata como um candidato ideal (SHINE, 2001).

Tais aspectos nos remetem, de um modo ou de outro, à nossa maneira de ser em sociedade. Não estaríamos privilegiando o externo e o superficial além da conta, e olvidando assim características mais duradouras? Se um psicopata pode adentrar livremente uma organização e angariar sucesso e reconhecimento profissional tão facilmente, à custa do sofrimento alheio, então o que esperar de nosso meio social? Isso pode ser agravado ainda se consideramos a tolerância excessiva, conivência e falta de compromisso das autoridades brasileiras no que diz respeito ao fenômeno da impunidade.

Alguns autores têm chamado a atenção para o fato de que as condições de trabalho em nosso mundo moderno parecem propiciar, de certa forma, a ascensão do psicopata. Trata-se de um meio fragmentado, individualizado e caracterizado pela competitividade extrema, onde o que mais importa é a forma como o indivíduo irá conduzir sua imagem, gerenciando-a no sentido daquilo que é esperado frente às demandas do mercado. Isso tudo desloca a energia das pessoas, que era antes dirigida à construção do caráter e de valores éticos humanistas, para uma realidade profissional que é em si mesma uma fazedora de psicopatas, visto serem essas condições as mais favoráveis para que ele exponha seu narcisismo, explore os demais e realize suas fantasias megalômanas (PIROLI, 1997; SHINE, 2001). Um exemplo claro das catástrofes geradas e do perigo que ronda a possibilidade de crescimento profissional e social de um psicopata, foi a ascensão de Hitler ao poder. Entre os políticos é possível encontrar, não raro, indivíduos claramente psicopatas (JUNG, 1946/1990).

REFERÊNCIAS

HILLMAN, J. O direito de permanecer em silêncio. Disponível em: . Acesso em 29 de set. 2007.

PIROLI, Kátia Silvana. Personalidade psicopática: um estudo sobre sua estrutura psíquica e seu funcionamento. 1997. 213 f. Dissertação (Mestre) - Curso de Psicologia Clínica, Universidade Guarulhos, Guarulhos, 1997.

JUNG, C. G. (1946). Aspectos do drama contemporâneo. São Paulo: Vozes, 1990.

SHINE, S. K. Psicopatia. Rio de Janeiro: Casa do Psicólogo, 2001.

4 comentários:

  1. Olá,

    Sou estudante de psicologia e achei seu artigo muito interessante. Poderia me passar a referência bibliográfica completa? Procurei por este autor, PIROLI, 1997 mas não encontrei seu trabalho.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Rosângela, acabei de te enviar um e-mail com as referências e também atualizei a postagem no blog. Atenciosamente, Maria de Fátima.

      Excluir
  2. existem diferenças entre sociopata e psicopata?

    ResponderExcluir
  3. Bruno, muito antigamente era comum utilizar o termo psicopatia para se referir à doença mental de um modo genérico. O termo sociopata exemplificaria justamente aquilo que conhecemos hoje por psicopata. É uma questão terminológica, mas são as mesmas categorias. Atenciosamente, Maria de Fátima.

    ResponderExcluir